Spin: estratégias não científicas para sugerir falsas verdades.

Atualizado: Mar 15


Desenho de Joe Baker, adaptado por Cardiosurgerypost

Spin é um termo utilizado para se referir a práticas do mundo científico um tanto quanto imorais. Resumidamente, spin é o "uso de estratégias narrativas para sugerir que um tratamento experimental é vantajoso ou não inferior, apesar de não haver uma diferença estatisticamente significativa no desfecho primário" [1]. Em outras palavras, spin é "o ato de distorcer a interpretação dos resultados de um determinado estudo científico, de forma a enganar ou distrair os leitores, para que os resultados sejam vistos de uma maneira mais favorável" [2].

Pode parecer absurdo que alguns autores recorram a essa prática, porém ela pode ser mais corriqueira do que imaginamos. Gaudino et al publicou recentemente um artigo no JAMA alertando sobre falácias usadas no momento de reportar os resultados de um estudo clínico randomizado. Analisando 84 trials sobre intervenção (coronariana, vascular e estrutural), cirurgia cardíaca e vascular, que relataram não haver diferença significativa no desfecho primário (a variável mais importante e relevante do estudo), spin foi identificado em 55 (65.5%) estudos. Considerando apenas os trials patrocinados pela indústria, spin foi apontado em 29 (80,6%) de um total de 36. Os autores concluem (por esse e outros motivos) que os ensaios clínicos randomizados sobre intervenção cardiovascular são “frágeis”.

É de extrema relevância saber identificar as estratégias de spin para não cair em falácias. Uma falácia científica absorvida como verdadeira pode gerar algumas consequências: (1) pesquisas subsequentes sem evidências de suporte, (2) revisões sistemáticas distorcidas, e (3) diretrizes clínicas deturpadas [2]. Na prática, fará com que você opte por uma conduta (indicar uma cirurgia/procedimento, prescrever uma medicação, escolher um determinado modelo de prótese, etc.) baseado em uma evidência falsa ou parcialmente verdadeira.

Mas como identificar quando o estudo lança mão de estratégias narrativas não científicas?

Abaixo, segue os critérios que Gaudino et al utilizaram para definir a presença ou não de estratégias de spin:

  • Estratégias de spin para estudos de superioridade:

  1. Foco dos autores em desfechos secundários estatisticamente significativos - lembrando que os desfechos secundários são de menor importância e não respondem com contundência a hipótese levantada pelo estudo;

  2. Interpretar resultados estatisticamente não significativos para o desfecho primário mostrando equivalência ou eficácia comparável do tratamento;

  3. Enfatizar as vantagens do tratamento experimental, apesar dos resultados não mostraram diferenças entre os grupos estudados.

  • Estratégias de spin para estudos de não inferioridade - estudos que avaliam se um novo tratamento não é intoleravelmente menos eficaz do que o tratamento padrão [3].

  1. Reivindicar ou enfatizar a não inferioridade, apesar de não estabelecer as margens de não inferioridade;

  2. Focar em outros resultados (como resultados secundários ou informações de outros estudos) quando a não inferioridade não foi estabelecida, inconclusiva ou obscura.

Reflexão

  • Spin é apenas uma das estratégias usadas para distorcer as informações e enganar o leitor. Diferenças entre o trabalho que foi registrado no início do estudo (no Web-based resource ClinicalTrials.gov, por exemplo) e o publicado, absurdamente, pode ocorrer. Exemplo: publicar um desfecho primário que foi registrado inicialmente como secundário para favorecer a análise.

  • Recentemente assistimos a balbúrdia envolvendo o estudo EXCEL. Vale a pena revisitar a nossa análise "EXCEL Trial 05 anos: Falácias estatísticas em favor da Angioplastia no tronco coronária esquerda". Nela, discutimos as possíveis estratégias (in praxis) de spin (entre outras falácias estatísticas) que foram usadas pelos autores do trabalho.

Referências:

  1. Gaudino M, Hameed I, Rahouma M, et al. Characteristics of Contemporary Randomized Clinical Trials and Their Association With the Trial Funding Source in Invasive Cardiovascular Interventions. JAMA Intern Med.Published online June 01, 2020. doi:10.1001/jamainternmed.2020.1670

  2. Chiu K, Grundy Q, Bero L. 'Spin' in published biomedical literature: A methodological systematic review. PLoS Biol. 2017;15(9):e2002173. Published 2017 Sep 11. doi:10.1371/journal.pbio.2002173

  3. Hahn S. Understanding noninferiority trials. Korean J Pediatr. 2012;55(11):403‐407. doi:10.3345/kjp.2012.55.11.403


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