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Crônica Cirúrgicas - O sofrimento desde o berço.

Maos cirurgicas

Às vezes fico pensando — talvez demais — sobre o sofrimento das crianças.

Especialmente aquelas com cardiopatias complexas.


E, ao mesmo tempo em que queremos salvá-las a qualquer custo, o próprio custo do salvamento dói.

Dói fundo.

Falo daqueles pacientes destinados ao tratamento paliativo, dessas cardiopatias complexas em que resolvemos o problema apenas por um tempo… e arrastamos a cardiopatia para uma idade maior, como quem conduz um fardo pesado sabendo que ele continuará lá adiante.


De forma alguma me refiro às patologias e cirurgias que quase oferecem uma cura, que prolongam não apenas a vida, mas a qualidade da vida — essas, com evidências e pés firmes, nos enchem de sentido, de esperança, de gratidão.


O que dói — e dói muito — são aquelas situações em que prolongamos a vida às custas de muito sofrimento.

O sofrimento da criança.

O sofrimento dos pais.

O sofrimento da equipe, que, após algumas intervenções, percebe que o destino é a paliação, que o objetivo é apenas minimizar a dor… mas a que custo?


Pergunto-me até que ponto é salutar seguir essa estratégia em pacientes por vezes tão complexos.

Pergunto-me se existem trabalhos randomizados capazes de demonstrar benefício — não só no prognóstico, mas na qualidade de vida.

Pergunto-me se é custo-efetivo.

E quando falo “custo”, também incluo o custo do sofrimento de todos, que talvez seja maior do que qualquer custo econômico.


Talvez o maior desafio seja tentar prever o futuro, essa tarefa sempre ingrata.

Às vezes é difícil reconhecer por qual caminho a criança irá.


Há aquelas que, apesar de toda a complexidade, conseguem viver mais e viver melhor.

E, se uma única criança é beneficiada, já pensamos que tudo valeu a pena.

Mas será mesmo?

O mesmo argumento poderia ser usado ao contrário: se uma criança sofre e falece após anos de intervenções, poderíamos concluir que não valeu a pena.


Também há a reflexão de que quem realmente pode dizer o que significa viver mais e melhor é o próprio paciente e sua família. Quem somos nós para decidir isso por eles?


Há ainda o dilema que acompanha o desfecho clínico inexorável. Se a patologia inevitavelmente levará à morte, por que não tentar o tratamento a qualquer custo?


É aqui que entrariam os estudos e ciência humana, para tentar demonstrar o benefício de uma terapia.

Mas como randomizar?

Como ter clareza, se as patologias são tão diversas e tão complexas?


É difícil — eu sei.

Difícil em todos os aspectos.

Mas ver o sofrimento de uma criança… isso é o mais difícil de tudo.


Ainda assim, precisamos acreditar no bem. Peço perdão pelo sentimentalismo e ignore minhas dúvidas e as palavras anteriores. É que, às vezes, essas incertezas afloram quando vejo uma criança sofrendo. Preciso pensar naquelas que vivem bem, porque são elas que nos mantêm de pé e eliminam toda a contradição interna.


Sobre o autor:

Fernando de Assis Machado é um cirurgião e escritor de crônicas luso-brasileiro, conhecido por seus relatos sobre a vida cirúrgica que vão além do bisturi. Seus textos buscam revelar o lado humano da profissão, explorando o que um cirurgião sente, enfrenta e carrega além das questões técnicas. Ele destaca que não é possível separar o ser técnico do ser humano; ambos coexistem. Para Fernando, ser um bom cirurgião exige, antes de tudo, amar a vida do próximo.


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