Crônica Cirúrgicas - O sofrimento desde o berço.
- Fernando de Assis Machado

- 29 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Às vezes fico pensando — talvez demais — sobre o sofrimento das crianças.
Especialmente aquelas com cardiopatias complexas.
E, ao mesmo tempo em que queremos salvá-las a qualquer custo, o próprio custo do salvamento dói.
Dói fundo.
Falo daqueles pacientes destinados ao tratamento paliativo, dessas cardiopatias complexas em que resolvemos o problema apenas por um tempo… e arrastamos a cardiopatia para uma idade maior, como quem conduz um fardo pesado sabendo que ele continuará lá adiante.
De forma alguma me refiro às patologias e cirurgias que quase oferecem uma cura, que prolongam não apenas a vida, mas a qualidade da vida — essas, com evidências e pés firmes, nos enchem de sentido, de esperança, de gratidão.
O que dói — e dói muito — são aquelas situações em que prolongamos a vida às custas de muito sofrimento.
O sofrimento da criança.
O sofrimento dos pais.
O sofrimento da equipe, que, após algumas intervenções, percebe que o destino é a paliação, que o objetivo é apenas minimizar a dor… mas a que custo?
Pergunto-me até que ponto é salutar seguir essa estratégia em pacientes por vezes tão complexos.
Pergunto-me se existem trabalhos randomizados capazes de demonstrar benefício — não só no prognóstico, mas na qualidade de vida.
Pergunto-me se é custo-efetivo.
E quando falo “custo”, também incluo o custo do sofrimento de todos, que talvez seja maior do que qualquer custo econômico.
Talvez o maior desafio seja tentar prever o futuro, essa tarefa sempre ingrata.
Às vezes é difícil reconhecer por qual caminho a criança irá.
Há aquelas que, apesar de toda a complexidade, conseguem viver mais e viver melhor.
E, se uma única criança é beneficiada, já pensamos que tudo valeu a pena.
Mas será mesmo?
O mesmo argumento poderia ser usado ao contrário: se uma criança sofre e falece após anos de intervenções, poderíamos concluir que não valeu a pena.
Também há a reflexão de que quem realmente pode dizer o que significa viver mais e melhor é o próprio paciente e sua família. Quem somos nós para decidir isso por eles?
Há ainda o dilema que acompanha o desfecho clínico inexorável. Se a patologia inevitavelmente levará à morte, por que não tentar o tratamento a qualquer custo?
É aqui que entrariam os estudos e ciência humana, para tentar demonstrar o benefício de uma terapia.
Mas como randomizar?
Como ter clareza, se as patologias são tão diversas e tão complexas?
É difícil — eu sei.
Difícil em todos os aspectos.
Mas ver o sofrimento de uma criança… isso é o mais difícil de tudo.
Ainda assim, precisamos acreditar no bem. Peço perdão pelo sentimentalismo e ignore minhas dúvidas e as palavras anteriores. É que, às vezes, essas incertezas afloram quando vejo uma criança sofrendo. Preciso pensar naquelas que vivem bem, porque são elas que nos mantêm de pé e eliminam toda a contradição interna.
Sobre o autor:
Fernando de Assis Machado é um cirurgião e escritor de crônicas luso-brasileiro, conhecido por seus relatos sobre a vida cirúrgica que vão além do bisturi. Seus textos buscam revelar o lado humano da profissão, explorando o que um cirurgião sente, enfrenta e carrega além das questões técnicas. Ele destaca que não é possível separar o ser técnico do ser humano; ambos coexistem. Para Fernando, ser um bom cirurgião exige, antes de tudo, amar a vida do próximo.










































Comentários