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Anatomia cirúrgica da valva tricúspide: conceitos práticos e armadilhas cirúrgicas.

Atualizado: 22 de dez. de 2025


Nesta postagem, o objetivo principal é apresentar as bases da anatomia cirúrgica da valva tricúspide e das principais estruturas anatômicas relacionadas, relevantes para o cirurgião cardiovascular, sempre estabelecendo um paralelo com conceitos cirúrgicos práticos.

A proposta é adotar uma dinâmica simples e objetiva: inicialmente, comentar cada estrutura anatômica e, em seguida, realizar uma reflexão prática sobre como esse conhecimento se aplica à rotina do cirurgião cardiovascular no centro cirúrgico.


Fonte da imagem: Referência 01.
Fonte da imagem: Referência 01.

Serão abordados os folhetos da valva tricúspide, anel tricúspide, os músculos papilares, as cordas tendíneas e as principais armadilhas cirúrgicas, com ênfase especial no sistema de condução cardíaco e na artéria coronária direita. Ficará evidente que o domínio da anatomia básica é um dos pilares fundamentais para o sucesso cirúrgico e para a prevenção de complicações evitáveis.


Ao final, caro leitor, vamos resolver uma questão no padrão SBCCV, para testar o conhecimento e revisar o assunto.


Folhetos e comissuras:

A valva tricúspide controla o fluxo do átrio direito para o ventrículo direito e é formada por três folhetos principais:

  • Anterior (o maior, também chamado de antero-superior);

  • Septal;

  • Posterior (o menor, também chamado de inferior).

Além deles, pequenos folhetos acessórios podem surgir nos ângulos entre os folhetos principais.


Notem, nesta imagem, a proporção de cada folheto: como ocorre na maioria dos casos, o folheto anterior é o maior e o posterior (ou inferior) é o menor. Além disso, observem a presença de pequenos folhetos acessórios na comissura medial.  Um conceito prático dessa anatomia: existe a técnica de bicuspidização (técnica de Kay), que reduz o anel tricúspide por meio da sutura do folheto inferior (o menor). Jamais realizar essa manobra no folheto septal ou no folheto anterior. Fonte da imagem: Referência 01.
Notem, nesta imagem, a proporção de cada folheto: como ocorre na maioria dos casos, o folheto anterior é o maior e o posterior (ou inferior) é o menor. Além disso, observem a presença de pequenos folhetos acessórios na comissura medial.  Um conceito prático dessa anatomia: existe a técnica de bicuspidização (técnica de Kay), que reduz o anel tricúspide por meio da sutura do folheto inferior (o menor). Jamais realizar essa manobra no folheto septal ou no folheto anterior. Fonte da imagem: Referência 01.
Com relação as comissuras, podemos notar nessa imagem os asteriscos apontando a sua posição.
Com relação as comissuras, podemos notar nessa imagem os asteriscos apontando a sua posição.
Nessa imagem (referência 06) podemos notar a nomeclatura de duas comissuras: 1. Anterosseptal e 2. Posterosseptal.
Nessa imagem (referência 06) podemos notar a nomeclatura de duas comissuras: 1. Anterosseptal e 2. Posterosseptal.
  • Reflexões práticas:


O folheto septal pode ser desinserido do anel tricúspide para expor a comunicação interventricular (CIV). Daí a importância de conhecer bem os limites desse folheto e ter a noção de que, em alguns casos, ele pode dificultar a visualização da CIV. Assim, uma técnica possível é realizar uma incisão próxima à sua inserção no anel e, após o fechamento da CIV, ressuturá-lo. Fonte da imagem: referência 01.
O folheto septal pode ser desinserido do anel tricúspide para expor a comunicação interventricular (CIV). Daí a importância de conhecer bem os limites desse folheto e ter a noção de que, em alguns casos, ele pode dificultar a visualização da CIV. Assim, uma técnica possível é realizar uma incisão próxima à sua inserção no anel e, após o fechamento da CIV, ressuturá-lo. Fonte da imagem: referência 01.

Folheto posterior e uma implicação prática: A Técnica de bicuspidização da valva tricúspide. Notem como o folheto posterior é plicado para reduzir o anel tricúspide.
Folheto posterior e uma implicação prática: A Técnica de bicuspidização da valva tricúspide. Notem como o folheto posterior é plicado para reduzir o anel tricúspide.
  • Quanto ao folheto anterior, por ser amplo, ele pode ser desinserido e posteriormente suturado após a redução do anel, em uma área compreendida entre os folhetos septal e posterior, por exemplo. A técnica do cone, desenvolvida pelo professor José Pedro, demonstrou a viabilidade de rotacionar esse folheto e ressuturá-lo em outra posição, mantendo sua função de impedir o refluxo de sangue para o átrio direito. Há algumas variações técnicas aplicadas ao adulto, mas não se preocupe em se aprofundar nesses detalhes agora — estamos apenas trazendo um exemplo prático.

Clique acima caso queira ler sobre a técnica do Cone aplicada para Endocardite.
Clique acima caso queira ler sobre a técnica do Cone aplicada para Endocardite.


Anel tricúspide:

Fonte da imagem: Referência 01.
Fonte da imagem: Referência 01.
  • O anel tricúspide serve de alicerce para e fixação dos folhetos.

  • Possui formato em sela, que tende a se tornar mais plano à medida que o anel se dilata, contribuindo para o desenvolvimento de insuficiência tricúspide secundária.

Fonte da imagem: referência 04.
Fonte da imagem: referência 04.
  • O anel possui uma região lateral e posterior "livre" (veja a imagem abaixo), que é mais sujeita a dilatação, pois não possui o suporte de outras estruturas tais como o trígono fibroso


Anatomia da valva tricúspide vs. dilatação do anel fibroso.

"Quando ocorre dilatação do anel tricúspide, o anel aumenta principalmente ao longo da parede livre do ventrículo direito (Notem na imagem que a porção septal pouco dilata, por estar mais próximo do trígono fibroso direito), resultando em disfunção da coaptação dos folhetos."


  • Reflexões práticas.

    • A maioria das correções da insuficiência tricúspide secundária tem por objetivo a redução do anel valvar, evitando a região septal, pois ela pouco dilata e ainda possui proximidade com o sistema de condução (veremos essa armadilha adiante).

    • Anel tricúspide ≥40 mm (ou seja, anel muito grande) no ecocardiograma, considere fortemente realizar um anuloplastia se estiver realizando outro procedimento (uma troca ou plastia mitral, por exemplo).



Slide da nossa aula do curso BIZU cirurgia Cardíaca sobre Defeito do Septo Atrioventricular. Explicamos que normalmente, a inserção da valva mitral no seu anel  é mais superior que o folheto septal tricúspide, fazendo com que o plano valvar mitral  fique ligeiramente superior. Qual a importância disso? Refletimos na aula algumas consequências práticas, uma delas é que no DSAV  os componentes da válvula atrioventricular direita e esquerda ficam no mesmo plano (veja na imagem acima), algo que ajuda na classificação e diagnóstico da patologia.
Slide da nossa aula do curso BIZU cirurgia Cardíaca sobre Defeito do Septo Atrioventricular. Explicamos que normalmente, a inserção da valva mitral no seu anel é mais superior que o folheto septal tricúspide, fazendo com que o plano valvar mitral fique ligeiramente superior. Qual a importância disso? Refletimos na aula algumas consequências práticas, uma delas é que no DSAV os componentes da válvula atrioventricular direita e esquerda ficam no mesmo plano (veja na imagem acima), algo que ajuda na classificação e diagnóstico da patologia.


Músculos Papilares

Três grupos principais:

  • Papilar anterior: envia cordas para os folhetos anterior e posterior.

  • Papilar posterior: menor que o papilar anterior, pode ser multifragmentado, envia cordas para os folhetos posterior e septal.

  • Papilares septais: pequenos, variáveis, enviam cordas para os folhetos anterior e septal.


Seta verde: papilar anterior; Seta vermelha: papilar posterior (ou inferior); Quadrado roxo: papilares septais (notem como eles são pequenos, muitas vezes parecendo trabeculações). Fonte da imagem: Referência 01.
Seta verde: papilar anterior; Seta vermelha: papilar posterior (ou inferior); Quadrado roxo: papilares septais (notem como eles são pequenos, muitas vezes parecendo trabeculações). Fonte da imagem: Referência 01.
Comparação entre os papilares do VD (esquerda da imagem) vs. VE (direita da imagem). Usualmente, os papilares da mitral são mais robustos, facilitando a sua identificação.
Comparação entre os papilares do VD (esquerda da imagem) vs. VE (direita da imagem). Usualmente, os papilares da mitral são mais robustos, facilitando a sua identificação.

Cordas Tendíneas

  • Originam-se dos músculos papilares

  • Podem estar inseridos tanto nas bordas livres quanto nas superfícies ventriculares dos folhetos (observem nas imagens anteriores).


Banda Moderadora:


  • Estrutura muscular importante do ventrículo direito:

    • contribui para o músculo papilar anterior

    • carrega fibras do sistema de condução


Clique acima para acessar o artigo.
Clique acima para acessar o artigo.


Armadilhas Importantes no Campo Cirúrgico:


Anatomia da valva Tricúspide e Ventrículo direito em um modelo 3D. O objetivo do vídeo é permitir que você perceba a proximidade íntima entre as estruturas, especialmente a relação da coronária direita com o anel mitral.
  • A tricúspide está intimamente relacionada a estruturas nobres, e isso exige extrema atenção durante reparos e implantes. Irei citar duas armadilhas principais:


1. Nó Atrioventricular (nó AV)/Sistema de condução: identifique o triângulo de Koch

Localizado próximo ao septo interatrial, adjacente ao folheto septal, no ápice do triângulo de Koch. Sua posição explica o risco de bloqueio AV durante pontos profundos no anel septal.
Localizado próximo ao septo interatrial, adjacente ao folheto septal, no ápice do triângulo de Koch. Sua posição explica o risco de bloqueio AV durante pontos profundos no anel septal.
O triângulo de Koch é delimitado pela região de fixação do folheto septal, tendão de Todaro e seio coronário. Muito cuidado ao manipular esse região ao realizar intervenções na valva tricúspide. Fonte da imagem: The Congenital Heart Institute of Florida (CHIF)
O triângulo de Koch é delimitado pela região de fixação do folheto septal, tendão de Todaro e seio coronário. Muito cuidado ao manipular esse região ao realizar intervenções na valva tricúspide. Fonte da imagem: The Congenital Heart Institute of Florida (CHIF)
  • Reflexões práticas:

    • Devemos lembrar que em defeitos do septo interventricular e atrioventricular (DSAV) , o sistema de condução pode se encontrar em outros locais. Veja na imagem acima que no DSAV o nó AV encontra-se próximo do seio coronário. Na verdade, particulamente, evito manipular ou dar pontos profundos em qualquer região do triângulo ou muito próximo ao seio coronário.

    Notem nessa anuloplastia tricúspide, a região septal é polpada para evitar lesão no sistema de condução. Fonte da imagem: referência 05
    Notem nessa anuloplastia tricúspide, a região septal é polpada para evitar lesão no sistema de condução. Fonte da imagem: referência 05
    • Alguns cirurgiões preferem reparar a valva tricúspide (anuloplastia, por exemplo) com o coração batendo, sem cardioplegia. Assim, caso o sistema de condução seja plicado ou lesionado, é possível identificar imediatamente qualquer alteração do ritmo cardíaco (incluindo BAVT) e dessa forma retirar o ponto culpado — algo que não é possível quando o coração está parado.


2. Artéria Coronária Direita

  • Corre no sulco atrioventricular, muito próxima ao anel tricúspide (veja o vídeo no início deste tópico). Lesões podem ocorrer em suturas profundas ou manobras de redução do anel.

  • Conclusão prática:

    • Pontos profundos no anel podem causar lesão coronária direita — uma complicação evitável com atenção anatômica.


Técnica Cirúrgica: Acesso ao Átrio Direito e a Valva tricúspide:


Acesso Torácico

  • Esternotomia mediana

  • Toracotomia lateral (em MICS e casos selecionados)


Abordagem do Átrio Direito

Imagem adaptada do excelente livro, de técnica operatória, Khonsari (3).
Imagem adaptada do excelente livro, de técnica operatória, Khonsari (3).

  1. Canulação e laqueamento das veias cavas com torniquetes.

  2. Abertura do átrio direito, que pode ser:


Cuidado fundamental: Evitar que a incisão se estenda em direção ao nó sinoatrial.


Para revisar esse conteúdo, vamos fazer uma Questão de Anatomia Cirúrgica da Valva Tricúspide no Estilo SBCCV, e a resolução no padrão BIZU CCV!


Durante o reparo cirúrgico da valva tricúspide em um paciente com insuficiência tricúspide funcional secundária, o cirurgião planeja realizar uma técnica de redução do anel tricúspide. Considerando a anatomia cirúrgica da valva tricúspide, suas relações anatômicas e as principais armadilhas do campo operatório, assinale a alternativa CORRETA:


A) O folheto septal é o maior folheto da valva tricúspide e deve ser preferencialmente plicado durante a técnica de bicuspidização, pois está afastado do sistema de condução.

B) A dilatação do anel tricúspide ocorre de forma homogênea em toda a sua circunferência, incluindo a porção septal (principal local de dilatação), motivo pelo qual as suturas devem ser profundas nessa região.

C) O nó atrioventricular situa-se próximo ao folheto anterior da valva tricúspide, tornando essa região referência antômica para localizar o sistema de condução e a mais crítica durante a realização da anuloplastia ou troca valvar.

D) A técnica de bicuspidização da valva tricúspide (técnica de Kay) baseia-se na plicatura do folheto posterior (inferior), reduzindo o diâmetro do anel na sua porção mais sujeita à dilatação.

E) A artéria coronária direita encontra-se distante do anel tricúspide, não havendo risco relevante de lesão durante suturas profundas no anel.






Gabarito: D

Comentário e Discussão


Alternativa D – CORRETA

A técnica de bicuspidização da valva tricúspide (Kay descreveu a primeira técnica de anuloplastia por sutura para o tratamento da insuficiência tricúspide secundária) consiste na plicatura e exclusão do folheto posterior (inferior), que é o menor folheto e está inserido na porção livre do anel tricúspide — região mais sujeita à dilatação por não possuir suporte fibroso (como o trígono). Jamais deve ser realizada no folheto septal, devido à íntima relação dessa região com o sistema de condução (nó AV).


Alternativa A – INCORRETA

O folheto anterior é o maior, não o septal. Além disso, a região próxima a inserção do folheto septal está intimamente relacionado ao sistema de condução, especialmente ao nó AV, sendo uma região de alto risco para bloqueio AV quando submetida a pontos profundos.


Alternativa B – INCORRETA

A dilatação do anel tricúspide ocorre predominantemente na porção livre do anel tricúspide. A porção septal tem uma tendência de dilatar menos, por estar próxima ao trígono fibroso direito.


Alternativa C – INCORRETA

O nó atrioventricular e o sistema de condução localiza-se próximo a região de inserção do folheto septal, no ápice do triângulo de Koch, e não na topografia do folheto anterior.


Alternativa E – INCORRETA

A artéria coronária direita percorre o sulco atrioventricular, muito próxima ao anel tricúspide, especialmente em sua porção posterior e lateral. Suturas profundas e sem pudor podem causar lesão coronariana, sendo uma armadilha cirúrgica clássica nas intervenções da valva tricúspide.


Referências:

  1. Atlas of Cardiac Anatomy, Digital Edition © 2022 Shumpei Mori, Kalyanam Shivkumar

  2. Pourmoghadam, Kamal & Boron, Agnieszka & Ruzmetov, Mark & suguna Narasimhulu, Sukumar & Kube, Alicia & O’Brien, Michael & DeCampli, William. (2018). Septal Leaflet versus Chordal Detachment in Closure of Hard-To-Expose Ventricular Septal Defects. The Annals of Thoracic Surgery. 106. 10.1016/j.athoracsur.2018.02.083.

  3. Khonsari, Cardiac Surgery. Safeguards and Pitfalls in Operative Technique 5 ed. Philadelphia 2017.

  4. Secondary tricuspid valve regurgitation: A forgotten entity - Scientific Figure on ResearchGate. Available from: https://www.researchgate.net/figure/Figure5-Ring-annuloplasty-Left-in-diastole-Right-during-systole_fig2_283697359 [accessed 6 Jul, 2024]

  5. https://www.escardio.org/Journals/E-Journal-of-Cardiology-Practice/Volume-16/Treatment-options-for-severe-functional-tricuspid-regurgitation-indications-techniques-and-current-challenges#

  6. https://citoday.com/articles/2017-july-aug/transcatheter-tricuspid-valve-therapies

  7. Pozzoli A, Zuber M, Reisman M, Maisano F and Taramasso M (2018) Comparative Anatomy of Mitral and Tricuspid Valve: What Can the Interventionlist Learn From the Surgeon. Front. Cardiovasc. Med. 5:80. doi: 10.3389/fcvm.2018.00080



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