Falência dos Enxertos após a Cirurgia de Revascularização do Miocárdio: quais são as principais causas?
- Laio Wanderley
- há 5 dias
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A falência dos enxertos após a cirurgia de revascularização do miocárdio ocorre principalmente por três mecanismos fisiopatológicos (isolados ou somados), que variam conforme o tempo de evolução pós-operatória. Esses processos são influenciados por fatores técnicos, características do paciente e pelo tipo de enxerto utilizado.
Mecanismos de Falência conforme o Tempo:
Falência Precoce (Dias até 1 mês)
Principal mecanismo: Trombose aguda
A oclusão do enxerto por Formação é encontrada na angiografia em 3% a 12% dos enxertos venosos, conforme algumas publicações;
A trombose aguda é associada aos seguimentes fatores (isolados ou associados):
Problemas técnicos na anastomose;

Sutura inadvertida da parede posterior da coronária é algo problemático, pois afetará o fluxo e aumentará o risco de trombose. Fonte da imagem: referência 01 
Aspecto angiográfico da estenose no sítio da anastomose. Nestes casos, a falha aparenta ser puramente técnica. Fonte da imagem: referência 02 Manuseio inadequado do enxerto
Lesão e estenose do enxerto ao realizar a dissecção.
Torção (kinking) do enxerto também entra no quesito de manuseio inadequado. Todo cuidado para não torcer (no mesmo eixo, semelhante uma toalha espremida), e também ao medir comprimento do enxerto, já que deixá-lo longo demais, promove acotovelamento (formação de um ângulo agudo ou dobra acentuada no percurso do enxerto).
"Momento opinião pessoal": acho mais fácil evitar lesão e a torção ao usar a técnica no-touch de dissecção dos enxertos, tendo em vista que a manutenção da camada adventícia e gordura perivascular dão proteção e suporte ao vaso, evitando traumas e kinking.

Aspecto angiográfico da torção do enxerto. Fonte da imagem: referência 02 Estado de hipercoagulabilidade
Sabidamente, não devemos suspender o antiplaquetário AAS antes de uma cirurgia de revascularização do miocárdio, de maneira e minimizar o risco de trombose do enxerto. E após a cirurgia, devemos reintroduzir o antiplaquetário com brevidade.
Espasmo do enxerto ou da coronária
Especialmente se o enxerto for arterial! Devemos lembrar que é recomendado medidas preventivas para vasoespasmo quando usamos o enxerto de artéria radial, por exemplo.
Nesse contexto (uso do enxerto radial), introduzir precocemente após a cirurgia e manter por 01 ano o bloqueador dos canais de cálcio (BCC) tem recomendação classe I e nível de evidência B, conforme a diretriz Brasileira de Síndrome Coronariana Crônica.

Aspecto cirúrgico do enxerto da artéria radial. Estude bem o paciente ao usar esse enxerto. Coronárias com lesões que não são críticas elevam o risco de competição de fluxo com o enxerto radial e trombose; Além disso, parece interessante avaliar a qualidade da radial, pois um baixo calibre e/ou ateromatose, podem elevar o risco de trombose aguda do enxerto (além de agravar o seu risco portencial de espasmo).
Observação: algumas publicações colocam uma temporalidade de 30 dias para eventos agudos, porém, obviamente, a trombose e complicações de uma técnica cirúrgica inadequada podem se manifestar além desse tempo. Na real, o sistema é complexo, e os eventos fisiopatológicos aqui descritos podem se somar no decorrer do tempo.
Falência Intermediária (1 a 5 anos)

Principal mecanismo: Hiperplasia intimal
Definida como o acúmulo de células musculares lisas e matriz extracelular na camada íntima do vaso.
É o principal processo patológico nos enxertos venosos entre 1 mês e 1 ano após a CRM.
Conforme o livro texto do professor Cohn (referência 04) "quase todas as veias implantadas na circulação arterial desenvolvem espessamento intimal dentro de 4 a 6 semanas, o que pode reduzir o lúmen em até 25%". Porém, raramente causa oclusão isolada, mas é o substrato para a aterosclerose tardia.
Aqui entra a plausibilidade e conceito da técnica no-touch para retirada da veia safena (veja a foto no início da postagem). Distensão venosa excessiva e lesão endotelial (mais evidentes na técnica convencional de retirada da safena) parecem reduzir a qualidade e patência do enxerto, favorecendo hiperplasia intimal, aterosclerose acelerada e falha do enxerto no médio-longo prazo.
Falência Tardia (Após 5 anos)
Principal mecanismo: Aterosclerose do enxerto
Formação de placas ateroscleróticas também afeta os enxertos.
Processo semelhante ao da doença coronariana nativa, porém pode ser:
Mais rápido
Mais agressivo
Especialmente nos enxertos venosos
A aterosclerose do enxerto venoso pode iniciar-se já no primeiro ano, mas torna-se evidente especialmente após 5 anos.
Dez anos após a cirurgia, 50% a 60% dos enxertos de safena estarão ocluídos. Nos enxertos arteriais (especialmente na mamária), esse processo não é tão pronunciado com patência em torno de 90% após 10 anos.
Metade dos enxertos venosos ainda pérvios terá algum grau de aterosclerose;
dois terços desses, terão estenose de 50% ou mais.
É a principal causa de falência tardia e reintervenção após a CRM.

Mensagem Prática e análise de questão TPI:
A durabilidade dos enxertos após CRM depende da combinação entre técnica cirúrgica adequada, cuidados com o enxerto (na retirada e implante) e controle rigoroso dos fatores de risco.
Com o conhecimento acima, vamos ver uma questão que caiu no Teste de Progresso Individual (TPI) para os residentes, em 2025:
Um paciente retorna cinco anos após cirurgia de revascularização miocárdica com dor torácica. A coronariografia mostra oclusão completa de dois enxertos venosos, enquanto os enxertos arteriais permanecem pérvios.
Neste caso, qual o principal mecanismo fisiopatológico responsável pela falência dos enxertos?
A. Hiperplasia intimal e subsequente degeneração aterosclerótica progressiva.
B. Rejeição por processos imunológicos do enxerto venoso.
C. Espasmo venoso tardio devido ao reduzido suporte muscular.
D. Compressão extrínseca por fibrose mediastinal pós-operatória.
E. Formação de trombos fibrinosos por trauma de manuseio intraoperatório.
Questão tranquila, que já revisamos no texto acima os conceitos envolvendo a falência dos enxertos e provável causa de trombose tardia.
A falência tardia dos enxertos venosos (após 1–5 anos da CABG) ocorre predominantemente por aterosclerose do enxerto, processo que é fortalecido sobre uma base de hiperplasia intimal.
Esse mecanismo é progressivo, leva à redução significativa do lúmen e explica a maior taxa de oclusão dos enxertos venosos em comparação aos enxertos arteriais, que apresentam maior durabilidade.
As demais alternativas descrevem mecanismos que não correspondem ao cenário tardio típico:
B: rejeição imunológica não ocorre em enxertos autólogos.
C: espasmo venoso (menos provável que os arteriais) é evento agudo, não tardio. Além disso, a redução do suporte muscular (a camada muscular é a responsável por reduzir o calibre do vaso) é um argumento sem plausibilidade em sugerir promoção de espasmo.
D: Em medicina, nem nunca e nem sempre. Mas o fato é que, a compressão extrínseca não é causa típica de oclusão de enxertos venosos no longo prazo.
E: trombose por trauma intraop. ocorre no período precoce (< 1 mês).
Dessa forma, Resposta correta: A. Hiperplasia intimal e subsequente degeneração aterosclerótica progressiva.
Referências
Khonsari, Cardiac Surgery. Safeguards and Pitfalls in Operative Technique 5 ed. Philadelphia 2017.
van Oort, M.J.H., Al Amri, I., de Weger, A. et al. Symptomatic early coronary graft failure in bypass surgery patients: incidence, predictors and clinical impact. Neth Heart J 33, 93–102 (2025). https://doi.org/10.1007/s12471-024-01926-z
Harik L, Perezgrovas-Olaria R, Soletti G Jr, Dimagli A, Alzghari T, An KR, Cancelli G, Gaudino M, Sandner S. Graft thrombosis after coronary artery bypass surgery and current practice for prevention. Front Cardiovasc Med. 2023 Mar 8;10:1125126. doi: 10.3389/fcvm.2023.1125126. PMID: 36970352; PMCID: PMC10031065.
COHN, Lawrence H.; ADAMS, David H. Cardiac surgery in the adult. 5. ed. New York: McGraw-Hill Education, 2018.
Gaudino M, Antoniades C, Benedetto U, et al. Mechanisms, Consequences, and Prevention of Coronary Graft Failure. Circulation. 2017;136(18):1749-1764. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.117.027597











































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