CIA tipo seio venoso superior: detalhes que o cirurgião deve saber antes de operar.

Atualizado: Mar 15


A Comunicação interatrial (CIA) deve ser a patologia mais adorada pelos residentes da cirurgia cardíaca, principalmente os R1 e R2. A grande maioria das CIA é do tipo ostium secundum, sendo um tipo de fácil reparo (rafia direta ou sutura de patch de pericárdio) e por isso usualmente é a primeira cirurgia que o residente realiza de “pele a pele”.

Porém a questão é: todos os tipos de CIA são de fácil correção e sem muitos detalhes ? Obviamente não!

Cada tipo de CIA possui suas nuances anatômicas e o cirurgião precisa estar atento nas particularidades de cada caso e nos defeitos associados mais comuns.

No caso da CIA tipo seio venoso superior - 4% a 11% das CIA - o defeito anatômico é quase sempre encontrada na junção entre a desembocadura da veia cava superior e o átrio direito gerado por uma deficiência da parede comum entre parte da veia cava e as veias pulmonares do lado direito. Existe também a CIA tipo seio venoso localizado na cava inferior (subtipo inferior) que é bem mais raro - 1% dos casos. O termo seio venoso refere-se a origem embriológica do tecido que encontra-se habitualmente presente na região de inserção das cavas no átrio direito.

Esse tipo de CIA quase sempre está associada (90% dos casos) com a conexão anômala parcial de veias pulmonares o que produz desvio adicional da esquerda para a direita.

Dessa forma a estratégia cirúrgica da CIA tipo seio venoso superior tem como princípios básicos não só o fechamento do defeito septal mas também o redirecionamento da veias pulmonares através da comunicação para o átrio esquerdo e a ampliação da cava superior.

Foto cirúrgica demonstrando o aspirador transpassando o CIA tipo seio venoso superior após abertura do átrio direito e cava superior. O desenho esquemática no canto superior da imagem - adaptado do livro do Professor Croti - mostra a técnica de fechamento do CIA redirecionando as veias pulmonares. Notem que a incisão para a abertura do átrio direito é vertical com direção a cava superior. Observem a relação íntima do defeito com a cava e veias pulmonares.

Foto cirúrgica mostrando o fechamento da CIA com redirecionamento das veias pulmonares direitas que drenavam de forma anômala para o átrio direito. Deve-se ter cuidado ao suturar o patch para não estenosar as veias pulmonares.

Com relação a necessidade de ampliação da parede anterior da veia cava superior, ela se faz necessária tendo em vista que o patch usado para direcionar as veias pulmonares pode abaular em direção a desembocadura da cava e provocar uma obstrução dinâmica ou até mesmo fixa, dependendo da forma de drenagem anômala (veias pulmonares do lobo superior podem drenar diretamente para cava superior) e do calibre da cava.

Foto cirúrgica mostrando a ampliação da cava superior com patch de pericárdio autólogo. Nessa sutura devemos ter cuidado redobrado com o nó sinusal que encontra-se próximo da desembocadura da cava no átrio direito.

Devemos ficar atentos também a canulação da cava superior. Pelo fato de haver necessidade de redirecionar as veias pulmonares e ampliar a desembocadura da cava, é fundamental que a canulação venosa seja na região mais alta possível. Quanto mais alto, mais espaço teremos para trabalhar no defeito.

Resumo dos detalhes e armadilhas

  1. CIA tipo Seio venoso superior é uma forma mais rara de CIA que tem uma técnica cirúrgica diferenciada.

  2. Canular alto a cava superior para ter campo cirúrgico

  3. Usar dois Patches na cirurgia.

  4. Um para o redirecionando as veias pulmonares anômalas e fechamento do CIA e;

  • Cuidado com as veias pulmonares

  1. Outro para ampliar a cava superior.

  • Cuidado com o nó sinusal.

Ficou com alguma dúvida quanto aos detalhes ? Veja esse vídeo de um caso operado no nosso serviço mostrando todos os macetes e tempos cirúrgicos.

Referência:

1. Costa AG, Duarte ML, Kraychete NC. Comunicação interatrial. ln: Croti UA, Mattos SS, Pinto Jr. VC, Aiello VD, Moreira VM. Cardiologia ecirurgia cardiovascular pediátrica. 2a ed. São Paulo:Roca;2012. p. 361-90.

2. doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.104.493775Circulation. 2005;112:1953–1958

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