Detecção de ruído nos marcapassos: causas, como identificar no eletrograma e a resposta do dispositivo

Olá leitor. Nesta postagem, vamos revisar:
o que é o ruído detectado pelos Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis (focaremos nos marcapassos);
como ele pode ser identificado no eletrograma intracavitário (EGM), incluindo padrões de alta e baixa frequência;
como o dispositivo reage quando interpreta esses sinais como atividade cardíaca.
reconhecer fenômenos como tracking inadequado, inibição da estimulação e reversão por ruído (Noise Reversion).
Vamos simbora.
1. O que é ruído no marcapasso?
Chamamos de ruído um sinal não fisiológico e não cardíaco detectado pelo sistema de sensibilidade do marcapasso e que pode ser interpretado como atividade cardíaca verdadeira.
A interferência eletromagnética (IEM) é uma das fontes mais comuns e geralmente produz sinais de alta frequência.
EMI, de maneira geral, é uma perturbação gerada por uma fonte externa (como um detector de metal ou um bisturi elétrico) que afeta um circuito eletrônico, alterando o seu funcionamento normal, causando ruídos, travamentos ou até danos.
Outros ruídos podem estar relacionados a alterações do cabo-eletrodo, problemas de conexão gerador-eletrodo, falhas de isolamento dos eletrodos ou miopotenciais.

2. Como identificar o ruído?
O eletrograma intracavitário (EGM) permite visualizar diretamente os sinais de ruído detectados pelos eletrodos/canais atrial e ventricular.
Os ruídos podem ser classificados conforme a frequência:
Ruídos de alta frequência
podem apresentar sinais rápidos e repetitivos; no exemplo clássico de interferência elétrica de 60 Hz, o traçado pode adquirir aspecto de “colar de pérolas”.

Ruídos de baixa frequência:
As principais causas são:
Miopotenciais (ou seja, captação da atividade elétrica muscular).
Danos aos condutores dos cabos eletrodos (aqueles que observamos na imagem do tópico 2);
Problemas de conexão no cabeçote do gerador;
Alterações no isolamento dos cabos eletrodos.




3. Por que o ruído é um problema?
Porque os Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis (DCEI), como o marcapasso e CDI, podem não saber inicialmente que aquele sinal é ruído. Ele o recebe pelo circuito de sensibilidade do eletrodo e pode interpretá-lo como uma despolarização cardíaca verdadeira.
Em outra palavras, o Dispositivo pode ser enganado!
Porém, como veremos mais adiante, os aparelhos possuem algoritmos para diagnosticar o ruído.
Na presença de ruído, o comportamento do marcapasso dependerá principalmente de qual canal está detectando o sinal (atrial ou ventricular).
4. Ruído no canal atrial
Em um marcapasso DDD, o ruído atrial pode ser interpretado como atividade atrial sentida (AS):
Ruído -> sensing atrial -> tracking (função do dispositivo de detectar a atividade no átrio e disparar um estímulo correspondente no ventrículo) -> estímulo ventricular.
Se os sinais forem rápidos e preencherem os critérios de detecção de taquiarritmia atrial, o dispositivo também pode acionar o Auto Mode Switch (AMS) e mudar temporariamente para um modo que não rastreia o átrio.
Ou seja, o marcapasso pode interpretar ruído como se fosse taquiarritmia atrial.

5. Ruído no canal ventricular: cuidado com a inibição
Aqui está uma das consequências potencialmente mais importantes.
Se o marcapasso interpreta o ruído ventricular como uma despolarização ventricular espontânea, entende que não precisa estimular àquela câmara:
Veja o esquema:
Ruído -> Sensibilidade ventricular (VS) falsa! -> inibição do estímulo ventricular artificial (de maneira errada, o marcapasso achou que era uma atividade elétrica do coração).
Quando o marcapasso é erroneamente inibido por ruído em um paciente dependente do marcapasso e sem ritmo de escape (ou seja, só há despolarização e contração cardíaca por estimulação elétrica artificial), uma interferência sustentada pode resultar em pausas prolongadas ou períodos de assistolia.
A consequência: Sintomas semelhantes a bradiarritmia (lipotímia, síncope, etc).
6. Algoritmo Noise Reversion: o mecanismo de proteção do marcapasso.
Para evitar que um ruído persistente provoque inibição prolongada, os dispositivos possuem algoritmos capazes de reconhecer padrões compatíveis com ruído.
Quando o sinal é classificado como ruído, pode ser ativada a Noise Reversion - ou Reversão por Ruído.
Didaticamente, ocorrerá a seguinte sequência:
o marcapasso percebe vários sinais (os ruídos)
através de algoritmos identifica que eles não parecem atividade cardíaca verdadeira
o dispositivo interpreta e classifica como ruído:
Neste momento, haverá uma mudança do seu comportamento (é o chamado Noise Reversion, uma mudança de modo de funcionamento, como se fosse o AMS ventricular) para evitar ficar continuamente inibido.
Nos dispositivos descritos no livro da SJM, a programação pode determinar VOO, DOO ou Pacing Off durante a reversão por ruído;
em sistemas dupla câmara, DOO é apresentado como opção nominal.
A lógica dos modos assíncronos é particularmente importante:
não confiar temporariamente no sensing contaminado pelo ruído → manter estimulação independentemente daquele sinal.
7. E no CDI?
Aqui o problema pode assumir outra dimensão.
Enquanto no marcapasso nos preocupamos principalmente com inibição, tracking inadequado e mudança de modo, em um cardiodesfibrilador um ruído ventricular muito rápido pode ser confundido com uma taquiarritmia ventricular.
Assim, dependendo da duração do ruído e dos algoritmos de discriminação do dispositivo, pode ocorrer detecção inadequada de TV/FV e terapia inapropriada.
Se quiser ler um relato de caso de choque inapropriado por interferência eletromagnética , clique aqui.
Take-home message
Ruído é um sinal não fisiológico que pode ser interpretado pelo dispositivo como atividade cardíaca verdadeira.
O EGM é fundamental para identificar o sinal e determinar em qual canal ele está sendo detectado, e como o dispositivo responde ao ruído.
No canal atrial, pode ocorrer tracking ventricular e até AMS inapropriado.
No canal ventricular, pode ocorrer inibição da estimulação, especialmente perigosa no paciente dependente.
O Noise Reversion é um mecanismo de proteção que reconhece padrões de ruído e modifica o comportamento do marcapasso para evitar consequências da detecção inadequada.
Mais uma vez, sensibilidade + algoritmos + eletrograma precisam ser entendidos juntos para interpretar corretamente o comportamento do dispositivo.
Referências:
NISHIOKA, Silvana Angelina D’Orio et al. Avaliação e programação dos marcapassos SJM: abordagem clínica e técnica. 1. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2017.







































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