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Auto Mode Switch (AMS) ou Mudança Automática de Modo do marcapasso: o que você precisa saber.

há 17 horas
6 min de leitura


  • Quando fazemos o ambulatório de telemetria, ao avaliar o marcapasso com o programador, é bastante comum observar episódios de AMS.

    • Devido a elevada frequência do evento, é fundamental o cirurgião conhecer esse mecanismo do marcapasso, e saber interpretar o episódio.

    • Dessa forma, vamos revisar neste texto, de maneira rápida e didática, o básico que funciona sobre esse tema, através de difinições, conceitos e exemplos.

1. Primeiro: o que é AMS? Começando pelo começo.

  • AMS = Automatic Mode Switch, ou Mudança Automática de Modo é a capacidade do marcapasso de mudar automaticamente de um modo de estimulação para outro quando são preenchidos critérios específicos.

  • A ideia central é simples: em um marcapasso bicameral (tem eletrodo no átrio e no ventrículo) funcionando em um modo que acompanha a atividade atrial (significa dizer que o marcapasso sente atividade elétrica do átrio e estimula artificialmente o ventrículo quando há BAVT - ou seja modo DDD), uma taquiarritmia atrial poderia ser “seguida” pelo dispositivo e resultar em estimulação ventricular em frequência elevada.

    • O AMS existe justamente para evitar isso.

  • Diante de uma taquiarritmia atrial (uma Fibrilação Atrial, por exemplo), o marcapasso muda automaticamente de um modo com sincronismo atrioventricular para um modo sem sincronismo AV. 


Em termos práticos:

  • Antes da arritmia: DDD / VDD

    • O átrio é sentido

    • A atividade atrial pode determinar a estimulação ventricular.

  • Quando aparece uma taquiarritmia atrial: AMS entra

    • o dispositivo muda para DDI/DDIR ou VVI/VVIR

    • Os modos de estimulação DDI e VVI deixa de “rastrear” aquela frequência atrial rápida, e estimula o ventrículo independente da atividade atrial. 

Essa é a essência do AMS.


2. Por que isso é necessário?

Em poucas palavras: Para evitar Taquicardias conduzidas pelo marcapasso.

  • se uma frequência atrial elevada for rastreada pelo dispositivo (leia-se, se toda atividade elétrica atrial própria deflagrar um evento ventricular artificial), pode ocorrer estimulação ventricular em frequência elevada.

  • Isso pode causar palpitações, tontura, pré-síncope, síncope e até insuficiência cardíaca (como uma Taquiarritmia ventricular, o mesmo mecanismo). 

  • A FA é a taquiarritmia atrial mais comum nessa situação, mas também pode ser por Flutter ou outras formas de Taquicardia atrial.

Portanto, pense no AMS como:

“O átrio entrou em taquiarritmia. Pare de usar o átrio como relógio para estimular o ventrículo.”


3. Mas o marcapasso não pode mudar de modo após curto período de batimento atrial rápido. Então como funciona?

  • Imagine que o paciente está em DDD e apresenta:

    • uma extrassístole atrial;

    • uma curta aceleração atrial;

    • alguns batimentos rápidos;

    • uma taquicardia atrial não sustentada.

  • Seria ruim ficar fazendo mudanças de modo de estimulação (DDD para DDI ou VVI) a cada pequena oscilação (algo frequente). 

    • Dessa forma, o acionamento do AMS ocorre quando há critérios específicos, que podem variar conforme o fabricante do dispositivo (por contagem de eventos atriais e ventriculares, por modulação progressiva e regressiva da frequência atrial ou por contador probabilístico). 

  • Um exemplo de algoritmo é o FARI (Filtered Atrial Rate Interval) citado no livro de programação da St. Jude. Como citado, cada empresa pode possuir o seu algoritmo, Mas o âmago é: o paciente tem Marcapasso dupla câmara, funcionando em modo DDD, teve uma taquiarritmia atrial SUSTENTADA, o dispositivo detecta e aciona o AMS.

  • Perceba que o marcapasso precisa de um tempo para confirmar a sustentação da taquiarritmia atrial, e dessa forma, o paciente pode se queixar de palpitação. 


4. O que acontece com o ventrículo depois que entra em AMS?

  • Depois da conversão, a frequência ventricular deixa de ser determinada pela frequência atrial. 

  • Podemos programar a frequência ventricular durante o AMS. Algumas referências sugerem programar  um pouco acima da frequência básica (alguns fabricantes colocam em torno de 80 bpm), buscando maior estabilidade hemodinâmica e maior débito cardíaco durante o episódio 

    • Lembrando que, nas taquiarritmias atriais há uma queda do enchimento ventricular o que pode afetar o débito cardíaco - pode ser sensível em alguns pacientes.

    • Por isso que pode ser salutar colocar a Frequência um pouco acima do programado no modo DDD. (habitualmente é programada no modo DDD em torno de 60 bpm).


5. Como o paciente sai do AMS?

  • O princípio é praticamente o inverso.

  • Quando a taquiarritmia termina e a frequência atrial cai de maneira sustentada, o dispositivo retorna para o modo DDD. 


6. AMS apropriado: Como saber?

  • Após ver na telemetria que ocorreu episódios de AMS, devemos conferir se o evento foi apropriado ou não (veja a imagem abaixo, com um exemplo real).

  • Para saber se o AMS foi apropriado, temos que avaliar durante a telemetria o eletrograma (EGM) do evento e constatar que houve, especialmente no canal atrial, uma provável taquiarritmia atrial (FA, Flutter ou taquiatrial) sustentada. 

    • É a mesma lógica do eletrocardiograma. Não devemos apenas ler o laudo eletrônico, e sim, avaliar o registro eletrocardiográfico das 12 derivações. 

    • No caso do eletrograma do marcapasso Dupla Câmara, teremos a captura da atividade elétrica atrial e ventricular. 

    • Pense como se fosse “duas derivações” registradas pelo marcapasso no interior do átrio e outra no ventrículo através dos eletrodos.

  • Aqui aparece um problema importante que devemos observar: Undersensing atrial

    • Na FA, por exemplo, a amplitude das ondas atriais pode variar bastante.

    • Se algumas ondas fibrilatórias não forem sentidas:

      • o dispositivo subestima a frequência atrial

      • AMS pode ocorrer tardiamente ou falhar.

  • Daí a importância da sensibilidade atrial adequada ser fundamental para o AMS funcionar corretamente.

    telemetria e ams
    Telemetria do nosso serviço, mostrando um Episódio de FA detectado pelo marcapasso , com atividade atrial rápida e irregular (a seta verde, no canal atrial, indica o início da taquicardia atrial com intervalos irregulares), levando à ativação do Automatic Mode Switching (a seta vermelha indica a ativação do AMS). O dispositivo interrompe o rastreamento atrial, evitando resposta ventricular rápida e mantendo frequência ventricular controlada (~80 bpm). Observe
Telemetria mostrando ams por taquicardia atrial
Esta imagem, retirada da Referência 1 — livro da St. Jude sobre programação de marcapassos, demonstra a ativação do AMS  desencadeada por taquicardia atrial. Observe, no canal atrial, o ritmo atrial de menor frequência e maior regularidade, características que ajudam a diferenciá-la da fibrilação atrial.

7. AMS inapropriado: como saber?

  • O dispositivo pode interpretar uma frequência elevada no canal atrial sem existir taquiarritmia atrial verdadeira.

    • Se isso acontece, o marcapasso aciona o AMS de maneira inapropriada.

  • Isso acontece principalmente por:

    • oversensing atrial (o átrio captura atividades elétricas que não são nativas).

  • Causas:

    • atividade ventricular (onda R) sendo sentida pelo eletrodo atrial;

    • interferência eletromagnética;

    • miopotenciais;

    • Lesões (microfratura) do eletrodo;

  • Portanto: AMS ocorreu não é sinônimo de FA/TA/flutter. Você precisa analisar o EGM!

ams inapropriado por interferência eletromagnética.
Outro exemplo, também retirado do livro da St. Jude (referência 1), demonstra a ocorrência de AMS de forma inapropriada, desencadeada por ruídos identificados no canal atrial, possivelmente relacionados à interferência eletromagnética. Esses sinais são interpretados pelo marcapasso como atividade atrial rápida, levando à ativação indevida do AMS. Nesses casos, é fundamental investigar, durante a anamnese, uma possível fonte de interferência eletromagnética capaz de justificar o evento.

8. AMS e FA subclínica

  • O AMS pode ser uma pista de FA silenciosa, mas o episódio, como já pontuamos, deve ser confirmado pelo eletrograma do marcapasso.

  • Confirmada a FA, o dispositivo permite medir duração e carga arrítmica. 

  • A diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial destaca maior risco tromboembólico em episódios > 5 minutos, com risco crescente conforme aumenta a carga de FA. 


Take-home message:

  1. AMS impede que uma taquiarritmia atrial seja rastreada para o ventrículo = evita Taquicardias conduzidas pelo marcapasso.

  2. A mudança de modo ocorre de DDD/VDD para DDI/DDIR ou VVI/VVIR.

  3. O marcapasso possui algoritmo para detectar taquiarritmias SUSTENTADAS. Eventos atriais de curta duração não ativa AMS

  4. Um AMS registrado pode ser apropriado ou inapropriado; portanto, é necessário olhar o EGM, sobretudo procurando FA/TA/flutter versus oversensing/far-field/ruído (isso daria uma tema para uma postagem específica).

  5. AMS devido a FA, devemos analisar a duração do evento, para ponderar anticoagulação nesses pacientes conforme o risco de evento tromboembólico.


Se você prefere assistir, segue acima uma aula baseada na nossa postagem, na qual discutimos o tema.

Referências: 

  1. NISHIOKA, Silvana Angelina D’Orio et al. Avaliação e programação dos marcapassos SJM: abordagem clínica e técnica. 1. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2017. 


  1. ELLENBOGEN, Kenneth A.; KASZALA, Karoly. Cardiac Pacing and ICDs. 7. ed. Wiley, 2020. p. 243. Edição Kindle. 


  1. MARTINELLI FILHO, Martino; NISHIOKA, Silvana Angelina D’Orio; SIQUEIRA, Sérgio Freitas de. Atlas de marca-passo: a função através do eletrocardiograma. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2012.


  1. Cintra, Fatima Dumas; Pisani, Cristiano Faria; Rezende, André Gustavo da Silva; Henz, Benhur Davi; Armaganijan, Luciana Vidal; Pimentel, Maurício; Lopes, Renato D.; Nascimento, Thais Aguiar do; Lorga Filho, Adalberto Menezes; Albuquerque, Afonso Luiz Tavares de; Fagundes, Alexsandro; Lacalle, Almir Alamino; Rodrigues, Ana Luisa Calixto; d’Avila, Andre; Paola, Angelo Amato Vincenzo De; Borges, Anibal Pires; Kalil, Carlos Antônio Abunader; Miranda, Carlos Eduardo de Souza; Duarte, Carlos Eduardo; Brandão, Carlos Manuel de Almeida; Moreira, Dalmo Antonio R.; Sobral Filho, Dário Celestino; Hachul, Denise Tessariol; Saad, Eduardo Benchimol; Arfelli, Elerson; Mateo, Enrique Indalécio Pachón; Bragança, Érika Olivier Vilela; Moraes Neto, Fernando Ribeiro de; Darrieux, Francisco Carlos da Costa; Fenelon, Guilherme; Lima, Gustavo Glotz de; Atié, Jacob; Leal, João Carlos Ferreira; Jorge, Jose Carlos Moura; Mateos, José Carlos Pachón; Moreira, José Marcos; Vasconcelos, José Tarcísio Medeiros de; Zimerman, Leandro Ioschpe; Sacilotto, Luciana; Magalhães, Luiz Pereira de; Silva, Luiz Roberto Leite da; Leal, Marcelo Garcia; Silva, Marcio Augusto; Figueiredo, Marcio Jansen de Oliveira; Pinheiro, Martha Valéria Tavares; Scanavacca, Mauricio Ibrahim; Souza, Olga Ferreira de; Costa, Ricardo Alves da; Kuniyoshi, Ricardo Ryoshim; Almeida, Rui Manuel de Sousa Sequeira Antunes de; Boghossian, Silvia Helena Cardoso; Wu, Tan Chen; Rodrigues, Thiago da Rocha; Andrade, Veridiana Silva de. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025. Arq. Bras. Cardiol., v. 122, n. 9, e20250618, out. 2025.


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