Crônica Cirúrgicas - A fé no talento e no desfecho.
- Laio Wanderley
- há 11 minutos
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Eu tenho uma luta desesperada para manter a fé no meu próprio talento. E você, possui ou já sentiu algo similar?
Não sei ao certo... Não, na verdade eu sei exatamente o que acontece, sei especificamente o evento abala a minha crença: um desfecho desfavorável, quando a evolução do paciente se enquadra no desfecho primário de muitos ensaios. Quando isso ocorre, surge uma dúvida tremenda a respeito do poder das minhas decisões, conhecimento e técnica. Pois, em última análise, quem decide por indicar e operar o paciente, e todo o conhecimento e técnica aplicados ao tratamento, é o cirurgião.
Temos força e fé baseados no nosso treinamento e experiência. Mas tudo vai por água abaixo quando o desfecho não é favorável. Você entende o que estou dizendo… é sobre a morte. Não é fácil passar por isso. Creio que, diferente do clínico, que muitas vezes vê o paciente morrendo aos poucos ou de maneira súbita, no caso do cirurgião, o paciente morre literalmente em suas mãos e, em alguns casos, literalmente de peito aberto.
Essa angústia e tristeza por presenciar tal fato, e perceber que o ator principal dessa cena melancólica é você mesmo (não da mansarda, como outros, mas fora dela) faz com que toda fé no talento seja abalada. Eu não tenho fé no meu quando isso acontece. Na verdade, é difícil ter confiança plena em meu talento. Como cirurgião, ele está sempre sendo testado, e nem sempre vence. O fato é que a fé não é algo para ver, conversar ou palpar. Muito pelo contrário: falar de fé é muito mais crer, respirar, refletir e amar a nossa profissão e o efermo.
Amar… gosto dessa palavra. Especialmente variantes nas línguas latinas. Me apetece como ela soa. Lembra o mar. Lembra coisas boas. Fé é amar. Temos fé no nosso talento, e nosso talento é a cirurgia cardiovascular. Temos amor por ela. Portanto, temos fé nela. Fé que pode beneficiar o paciente. Olha o cuidado com o termo: escrevi a palavra pode, e não deve. Não afirmei. Na era da medicina fundamentada em evidência, o maior fato é que não sabemos ao certo o real benefício que o paciente irá ter. Como o próprio conceito da arte de basear a cura em evidência mostra, sempre lidamos com probabilidade.
Podemos comparar essa probabilidade com a fé? Eu entendo que não podemos dizer, de maneira categórica, que aquele paciente em específico irá se beneficiar. Ele tem uma probabilidade de benefício com o dado tratamento (uma TAVI, uma revascularização). Mas ser assertivo ao afirmar que individualmente aquele paciente irá se curar e ter os benefícios estabelecidos pelas evidências é fé. É fé que ele não estará na curva de mortalidade. É fé que se encontrará na lista dos que sobreviveram após cinco anos de estudo.
Bom, caro leitor, longe de mim querer afirmar que a ciência é igual à fé. Mas, quando estamos lidando com pessoas, não há como dissociar, para aqueles indivíduos, a ciência da fé. O cirurgião precisa ter dedicação, conhecimento e técnica, mas sem fé na sua arte (e na sua religião, caso a tenha), não há como atuar como cirurgião. Porque, além de tudo, o cirurgião precisa transmitir sua fé no benefício do tratamento; o paciente também precisará dela para acreditar que viverá mais e melhor após a intervenção.
Por fim, como maneira de manter o meu talento sempre vivo, afirmo que a nossa fé é tão grande quanto a nossa técnica.
Sobre o autor:
Fernando de Assis Machado é um cirurgião e escritor de crônicas luso-brasileiro, conhecido por seus relatos sobre a vida cirúrgica que vão além do bisturi. Seus textos buscam revelar o lado humano da profissão, explorando o que um cirurgião sente, enfrenta e carrega além das questões técnicas. Ele destaca que não é possível separar o ser técnico do ser humano; ambos coexistem. Para Fernando, ser um bom cirurgião exige, antes de tudo, amar a vida do próximo.









































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