Como realizar o desmame da circulação extracorpórea? Um passo a passo prático.
- Laio Wanderley
- há 11 minutos
- 6 min de leitura

Em diversas cirurgias cardíacas, é necessário realizar a parada do coração por meio da cardioplegia. Após a realização do reparo, seja uma troca valvar, uma cirurgia de revascularização do miocárdio ou a correção de uma cardiopatia congênita, é feito o desclampeamento da aorta e iniciado o período de reperfusão, com retorno do fluxo de sangue para as coronárias, permitindo que o coração recobre seus batimentos.
Durante todo esse processo, quem mantém a circulação do paciente é a máquina de circulação extracorpórea (CEC), ou máquina coração-pulmão. Ela assume, temporariamente, duas funções fundamentais: bombear o sangue para todo o organismo e realizar as trocas gasosas, oxigenando o sangue e eliminando o gás carbônico.
Ao término do tempo principal da cirurgia, chega o momento de realizar o desmame da circulação extracorpórea e a devolução ao coração e pulmão do paciente das funções que estavam sendo realizadas pela máquina de CEC.
Mas como fazer isso de maneira segura e prática? Os 05 PASSOS para "saída de CEC".
Vou compartilhar um passo a passo simples e prático que utilizamos no nosso serviço.
Escrevo, caro leitor, o pronome "nosso", pois cada serviço pode ter uma rotina diferente. Vou tentar passar nossa rotina e o conceito por trás dela.
Outra observação é que fiz a divisão em 5 PASSOS passos, mas não necessariamente precisa ser uma sequência: dá para fazer simultaneamente, inverter algum passo ou mesmo não fazer algum deles, conforme a experiência. Mas, para quem está começando, parece interessante se ater aos passos e conceitos.
PRIMEIRO PASSO: Certifique-se de que o reparo foi efetivo e que o coração recuperou sua função.
Ao retirar o pinçamento aórtico, as coronárias voltam a receber sangue, a na maioria das vezes, em poucos minutos ele já volta a bater. Se isso ocorreu, já siga o PASSO 01.
Simplesmente olhe o coração e sua "batida". Observe diretamente a contratilidade e utilize também o ecocardiograma transesofágico (já peça ao anestesista, ecocardiografista ou mesmo saia de campo e faça) para informações adicionais, tais como;
função ventricular esquerda (compare sempre com a batida antes da cardioplegia;
ar nas câmaras esquerdas e, especialmente;
se o reparo foi realizado de forma adequada, principalmente em casos complexos.
Se foi uma troca valvar, verifique se existe leak paravalvar, se a prótese apresenta funcionamento adequado e se não há gradientes inesperados.
Se foi uma plastia mitral, tente já observar se ficou boa. Se foi uma cardiopatia congênita, confirme, por exemplo, se não ficou uma comunicação interventricular residual importante.
Se foi uma revascularização, observe se há déficit de contratilidade, e por aí vai.
O ECO TE ou epicárdico veio para somar e dar informações sobre complicações cirúrgicas que dificultarão a saída de CEC ou até mesmo a impedirão, sendo necessário revisar o reparo (é incomum, mas pode acontecer).
SEGUNDO PASSO: Confirme que toda a parte hemodinâmica está adequada
Não basta apenas o coração estar contraindo bem e o reparo cirúrgico estar bem (presumido ou visto no ECO TE).
É necessário revisar e garantir que todos os determinantes da pressão arterial estejam adequados.
Aqui vale sempre lembrar do mantra do professor Wanderley:
"Ritmo, frequência, volume, resistência e bomba."
Então se questione:
O ritmo é sinusal?
Basta olhar o monitor e o ECG. Tente sempre comparar o ritmo e também a morfologia do QRS antes e após a cardioplegia. A presença de bloqueios AV, FA de alta resposta, ritmo juncional, por exemplo, pode dificultar a saída de CEC.
Exemplo: pacientes que apresentam BAVT ou assistolia persistente durante o período de reperfusão podem precisar de estimulação artificial com o fio de marcapasso para poder sair de CEC.
A frequência cardíaca está normal?
Ritmo e frequência se complementam, então basta verificar se existe alguma taquiarritmia (taquicardia ventricular), bradiarritmia ou bloqueio atrioventricular que possa comprometer o desmame.
Volume: o coração está bem cheio ou vazio? O BH está positivo ou negativo?
O controle da volemia durante a CEC é fundamental. Quando realizamos o desclampeamento, já questionamos qual o balanço hídrico atual, para ter noção se o paciente está hipervolêmico ou hipovolêmico. Isso pode impactar a saída de CEC, pois não reconhecer que o coração está "seco" e que o BH está negativo, fatores que geram choque hipovolêmico, pode erroneamente levar a equipe a iniciar vasopressor.
O paciente apresenta vasodilatação importante?
Pacientes graves, com tempo de CEC longo ou infectados (endocardite), podem apresentar vasodilatação importante. Durante a circulação extracorpórea é possível calcular a resistência vascular sistêmica.
Se o paciente estiver hipotenso, com os demais parâmetros preservados, muitas vezes o problema é vasoplegia, devendo ser corrigido com vasopressores antes da saída da máquina.
A contratilidade é suficiente?
Daí entramos novamente no passo 1. Revise se a contração do coração está boa por visão direta e pelo ECO.
Se a contração nitidamente estiver ruim, o doente pode precisar de dobutamina para conseguir sair de CEC. Por vezes, em pacientes com disfunção ventricular e fração de ejeção reduzida, já iniciamos a dobutamina após desclampear a aorta, antecipando uma possível necessidade de uso de inotrópico.
TERCEIRO PASSO: Revise a parte metabólica
Outro ponto fundamental é garantir que o paciente esteja metabolicamente preparado para sair da circulação extracorpórea.
Então, a pergunta básica aqui para o anestesista e perfusionista é: como está a última gasometria? É lá que vamos checar.
Certifique-se de que não há hipocalemia ou hipercalemia, distúrbios ácido-base importantes, alterações significativas do lactato, gap de CO₂ ou qualquer outra alteração hidroeletrolítica que possa comprometer a hemodinâmica e, consequentemente, o desmame da CEC.
Por exemplo: alterações do potássio podem não causar grandes repercussões enquanto o paciente ainda está em circulação extracorpórea. Porém, após a saída da máquina, podem desencadear arritmias graves, como BAVT, assistolia, taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular, colocando o paciente em risco.
Às vezes, inclusive, o coração nem volta a bater por conta de distúrbios metabólicos (especialmente do potássio).
QUARTO PASSO: Não esqueça de retornar à ventilação mecânica
Esse é um detalhe simples, mas extremamente importante.
Durante a circulação extracorpórea, frequentemente interrompemos a ventilação mecânica, já que a oxigenação é realizada pela máquina coração-pulmão.
Antes da retirada da CEC, peça ao anestesista para retornar a ventilação mecânica e confirme que as trocas gasosas foram restabelecidas.
Pode parecer óbvio, mas esse esquecimento acontece.
Já vi pacientes apresentarem dessaturação importante simplesmente porque a ventilação mecânica não havia sido retomada. Se isso não for percebido rapidamente, o paciente pode evoluir com hipoxemia, hipercapnia e instabilidade hemodinâmica.
Por isso, uma comunicação eficiente entre cirurgião, anestesista e perfusionista é essencial durante todo o processo.
QUINTO E ÚLTIMO PASSO: Faça um desmame gradual da circulação extracorpórea
Depois de revisar todos esses pontos, chega o momento do desmame propriamente dito.
Tem descrição na literatura, que o período de desmame deve ser 1/4 do tempo de isquemia.
Se o tempo de clapeamento foi 100 minutos, em tese, deveríamos aguardar 25 minutos de reperfusão para desmamar a CEC.
Porém, por experiência própria e de outros serviços, quando os passos anteriores estão normais, já estamos apto a realizar o desmame. Não precisa se agarrar nessa regra do tempo mínimo de reperfusão.
No nosso serviço, trabalhamos guiados pelo índice cardíaco para realizar o desmame.
Reduzimos o fluxo da circulação extracorpórea de maneira progressiva, permitindo que o coração reassuma gradualmente toda sua função.
Por exemplo:
2,4 → 2,2 → 2,0 → 1,5 → 1,0 → 0,5 L/min/m².
Nesse momento, um índice cardíaco de aproximadamente 0,5 representa apenas um suporte mínimo da circulação extracorpórea. Se tudo permanecer estável, interrompemos completamente a circulação.
Essa redução gradual permite que o coração volte, progressivamente, a receber todo o retorno venoso e a suportar toda a pré e pós-carga, evitando uma transição abrupta, especialmente em casos que possuem disfunção ventricular.
PASSO DE SEGURANÇA: após sair de CEC, quando realizar decanulação
Após interromper a circulação extracorpórea, não retire imediatamente as cânulas.
Observe o paciente por alguns minutos.
Confirme que a pressão arterial permanece adequada, que o débito cardíaco é suficiente e que o coração mantém estabilidade.
Se houver qualquer dificuldade em manter a circulação espontânea e o paciente tá muito hipotenso, ou houver qualquer intercorrência hemodinâmica, volte a CEC e revise sistematicamente todos os pontos anteriores. Na maioria das vezes, o sucesso do desmame não depende de um único fator, mas da revisão cuidadosa de todo o processo.
Checklist do desmame da circulação extracorpórea
Reparo cirúrgico adequado e confirmado pelo ecocardiograma transesofágico.
Volume adequado.
Frequência e ritmo cardíacos adequados.
Resistência vascular sistêmica adequada.
Boa contratilidade ventricular.
Distúrbios metabólicos e hidroeletrolíticos corrigidos.
Ventilação mecânica restabelecida.
Comunicação entre cirurgião, anestesista e perfusionista.
Desmame gradual da circulação extracorpórea.
Observação da estabilidade antes da retirada das cânulas.
Take-home massage:
Penso que esse fluxo de saída de CEC e, especialmente, o mantra hemodinâmico do chefe, pode ser usado em vários contextos. No pós-operatório, no paciente crítico, na ECMO ou em qualquer situação em que o paciente apresente instabilidade hemodinâmica, choque, ou desmame de suporte circulatório, podemos lançar mão desse mesmo raciocínio.









































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