FECHAMENTO PERCUTÂNEO DO CANAL ARTERIAL: Seleção dos pacientes e como realizar na prática.
- Laio Wanderley
- há 3 dias
- 12 min de leitura
Atualizado: há 13 horas
Apresentamos o seguinte conteúdo nessa publicação:
CONTEXTO CLÍNICO PRÁTICO - QUANDO PENSAR EM INDICAR O FECHAMENTO DO CANAL ARTERIAL
Revisão rápida da indicação de intervenção.
SELEÇÃO DOS PACIENTES: QUANDO INDICAR CIRURGIA VS. OCLUSÃO PERCUTÂNEA.
Características que favorecem o fechamento percutâneo vs. cirúrgico
Classificação de Krichenko modificada do canal arterial patente - aprenda a morfologia do canal.
LISTA DE MATERIAIS PARA O FECHAMENTO PERCURTÂNEO DO CANAL ARTERIAL (PCA);
Aqui, você irá revisar os introdutores, guias, cateteres e sistema de entrega usado no procedimento.
Oclusores de canal arterial: os principais tipos e modo de seleção.
Obs: Sem saber os materiais que são usados, será difícil entender os passos e técnica de implante.
DESCRIÇÃO DO PROCEDIMENTO - PASSO A PASSO
Neste segundo momento da postagem, o objetivo é descrever em ordem cronológica os passos do procedimento, englobando:
Técnica cirúrgica e macetes práticos
Objetivo deste conteúdo e público alvo:
Auxiliar na revisão dos principais conceitos técnicos do fechamento percutâneo do PCA.
Público alvo: Cirurgiões que estão começando na técnica e residentes
1) CONTEXTO CLÍNICO: QUANDO PENSAR EM INDICAR O FECHAMENTO DO CANAL ARTERIAL

Vamos começar pelo começo: A persistência do canal arterial patente pode ocorrer de maneira isolada ou associada a diversas cardiopatias congênitas. Quando isolada, e a depender do seu calibre, pode provocar um shunt, um desvio de sangue importante da aorta para a artéria pulmonar, resultado em hiperfluxo pulmonar.
Quando este hiperfluxo é importante, pode gerar repercussões cardiovasculares. Se o pulmão está recebendo muito sangue, este sangue será desaguado nas camaras esquerdas, gerando sobrecarga. Além disso, congestão e hipertensão podem florescer, elevando a resistência vascular pulmonar (devido ao excesso de fluxo, mais uma vez) e a relação (Qp:Qs > 1.5 (Q = fluxo; p = pulmonar/ S sistema; ou seja, relação do fluxo pulmonar vs. fluxo sistemico)
Diante do diagnóstico (o ECO é o pilar para isto) a evidência de repercussão hemodinâmica (sobrecarga de câmaras esquerdas, hipertensão pulmonar, Qp:qs acima de 1.5, complicações prévia (endocardite) podemos considerar o fechamento do canal arterial.
2) A SELEÇÃO DOS PACIENTES: QUANDO INDICAR CIRURGIA VS. OCLUSÃO PERCUTÂNEA.
Conforme diversas fontes, o fechamento percutâneo é o método de escolha, especialmente quando não houver outras cardiopatias associadas e em adultos, onde a cirurgia é mais temerosa (canal rígido e/ou calcificado com risco de ruptura a manipulação).
Porém, muitos papers não detalha as características do paciente e anatomia do canal que favorecem o fechamento percutâneo ou a cirurgia.
Método percutâneo: características que favorecem.
Algumas referências apontam que o fechamento percutâneo é mais adequado em pacientes acima de 5 kilos.
Canais pequenos facilitam o implante do oclusor (na maioria das vezes)
Morfologia do canal Cônica (Krichenco tipo A).

Cirurgia Aberta: Características que favorecem
Canais de grande calibre.
Podem exigir oclusores grandes, gerando risco de protusão do dispositivo para aorta e/ou artéria pulmonar, causando obstrução, especialmente em crianças menores. Neste cenário, a cirurgia pode ser mais segura.

Fluoroscopia demonstrando o Oclusor se projetando para o lumen da aorta, gerando Obstrução. Tal complicação tem maior probabilidade de ocorrer em crianças pequenas e/ou uso de oclusores grandes (Fonte da imagem: Referência 2). Neonatos e crianças abaixo de 5 kilos
Se apegue ao conceito:
quanto menor for a criança, mais complexo é o fechamento percutâneo no que cerne aos acessos e riscos de complicação. Como cirurgião, penso que não substituir uma cirurgia de baixo risco por um procedimento percutâneo de alto risco.
Sempre individualize.
Se o canal for pequeno, sem grande repercussão cardiovascular, parece interessante focar no tratamento clínico inicial, acompanhar de perto o paciente, e considerar o fechamento quando a criança estiver maior.
Uma criança maior ou adulto facilita os acessos e navegabilidade do dispositivo no interior dos vasos - menor risco.
3) LISTA DE MATERIAIS PARA O FECHAMENTO PERCURTÂNEO DO CANAL ARTERIAL (PCA)
O necessário para realizar o fechamento do canal arterial por via percutânea.
Importante notar que essa os materiais podem ser alterados conforme anatomia do canal e idade/peso da criança, ou preferência do operador. Tentarei passar o âmago de cada material, citando a sua função no procedimento e dicas práticas.
#Check-list de materiais usados no procedimento com comentários práticos:
Acessos e introdutores

Para o fechamento canal arterial, podemos selecionar 2 acessos e 2 introdutores:
Arterial femoral esquerda - para introdução de um cateter pigtail na aorta e injeção de contraste
Veia femoral direita - Neste acesso, iremos usar guias e introdutores para cateterizar o canal arterial e navegar com o sistema de entrega do oclusor (dispositivo de fechamento)
Introdutores:
Introdutor femoral 4-5 Fr (01 unidade) - para implante na artéria femoral e introdução do cateter pig tail na aorta torácica.
Escolha a femoral esquerda.
Introdutor femoral 5-6fr (01 unidade) - para implante na veia femoral direita e facilitar a troca de guias e cateteres.
Dica: Escolha a veia femoral direita. Por estar mais próximo do Cirurgião (posicionado a direita), facilita o manuseio dos guias, cateteres e sistema de entrega.
Guias - 3 guias principais:
1 - Guia hidrofílica, 0.035" ponta angulada (longa, 260 cm)
é uma guia para navegação através do sistema arterial e venoso

Exemplo de guia hidrofília da marca Boston - pode ser qualquer uma da sua preferência.
2 - Guia teflonada, Longa, 260 cm, 0.035" ponta Reta

Exemplo de guia teflonada ponta reta, que usamos em um caso do nosso serviço. A ponta reta dessa guia facilita cruzar canais estreitos (segue o mesmo raciocínio da guia ponta reta para cruzar a valva aórica estenótica na TAVI). A ponta reta dessa guia ajuda a cruzar o canal arterial
Devemos ter cuidado com perfuração sempre que usamos esta guia
Não pode ser rígida, para minimizar o risco de perfuração
Pode ser curta (150 cm, como descrito na imagem acima), pois essa guia serve mais para cruzar o canal e introduzir o cateter através, não sendo necessária realizar troca de cateteres através dele.
Particularmente, prefiro a longa guia longa (260 cm), para não dificultar troca de cateter em caso de necessidade eventual - que já ocorreu certa vez. Usamos um cateter de 6 Fr, JR (só tinha esse calibre) devido a dificultade de cruzar com a guia o canal arterial. Uma vez cruzado o canal com guia de 150 cm, fomos obrigados a subtituir o cateter JR, pois seu calibre não ultrapassava o canal arterial. Nesse cenário, foi difícil realizar a troca, pois simplesmente a guia de 150 cm não tem comprimento (tivemos que usar a técnica do Varal com um cateter laço).
Para entender esses conceitos de guia de troca, navegação, etc, leia nossa postagem "Guias, Cateteres e Introdutores - Características e conceitos básicos para o Cirurgião Cardiovascular."(clique aqui).
3 - Guia stiff, teflonada, longa 260 cm, 0.035" ponta J(Amplatz ou equivalente)

Exemplo de guia de suporte. Sua rigidez ajuda a dar o suporte necessário ao sistema de entrega do oclusor navegar pelo sistema circulatório. É Guia de suporte para entrega do dispositivo
As guia de suportes tem que ser mais rígidas para suportar e dar estabilidade a cateteres e dispositivos mais calibrosos.
Deve ficar posicionada o mais distal possível (no nível das ilíacas) para dar um bom suporte.
Guias 0.018"
É opcional. Podem ser usados na população pediátrica que possuem vasos e dispositivos de menor calibre.
Cateteres - 4 principais

Fonte própria da imagem. 1 - Cateter pigtail (01 unidade)- para posicionamento no nível da subclávia esquerda e angiografia aórtica. Localiza e pode ajudar a dimensionar o canal, junto as medidas do ECO.
Quanto menor a criança, menor deve ser o calibre (4 Fr).
Introduzido através do introdutor da artéria femoral.
Cateter multipurpose (MP), Judkins right (JR) ou Cateter vertebral (caso de anatomia tortuosa)

Aortografia através do cateter pigtail posicionado no nível do istmo aórtico. Veja os materiais que citamos e seu aspecto na Fluroscopia, projeção lateral. (Fonte própria) Esses cateteres servem para ajudar a direionar o guia através do átrio direito, ventriculo direito, arteria pulmonar e, finalmente, o canal arterial.
Como o cateter irá passar através do canal artérial, quanto menor o canal, menor deverá ser o catateter.
Em certo caso que realizamos o fechamento percutâneo, o canal era 4 mm, e houve dificuldade da passagem de um cateter MP 6FR. Substituímos pelo cateter Vertebral 5 fr, que cruzou com facilidade o canal.
O conceito é: quanto menor a criança e o canal, menor deverá ser os calibres dos guias e cateteres.
Comece pelo MP junto com a guia hidrfílica. Se tiver dificuldade para progredir a guia e cateter para a artéria pulmonar, troque o cateter MP pelo JR, cuja conformação irá facilitar a navegação do átrio para o VD (vindo por baixo, pela veia femoral, as vezes é difícil avançar o a guia pelo cateter MP, que tem um curvatura menos pronunciada.
Bomba injetora

Sistema de entrega - Conjunto de liberação do dispositivo
Bainha ou cateter de entrega compatível com o dispositivo escolhido.
Esse sistema é escolhido conforme o tamanho do oclusor. Quanto maior for a prótese, maior é o calibre do sistema de entrega (ver tabela abaixo).
Vale salientar que cada empresa pode ter o seu sistema de entrega. De maneira Geral eles são bem semelhantes.


Dispositivos de oclusão:

Caixa de um dispositivo de oclusão de PCA Apenas um será usado, que será selecionado conforme a calibre e morfologia do defeito (mensurado pelo ECO, Aortografia intraoperatória e/ou Angiotc da aorta).
O conceito é: Selecione o dispositivo que mais se adequa a anatomia do canal.
Abaixo, segue alguns materiais possíveis e indicações

1 - Amplatzer Duct Occluder I (ADO I)
Esse desenho é ideal para canal com a morfologia A de Krichenko (canais com formatos cônicos).

Desenho do oclusor clássico de canal arterial: levemente afunilado, apresenta um disco de retenção fino, com diâmetro usualmente 4 mm maior que o corpo do dispositivo, garantindo seu posicionamento seguro na ampola ductal. As fibras de poliéster, suturadas ao dispositivo, induzem trombose e promovem uma oclusão completa e rápida. (Fonte da imagem: Referência 3)



A imagem acima é um print da tela do meu celular. A abbott tem um aplicativo, que você pode baixar, que ajuda no processo de seleção da prótese. MUITO ÚTIL E PRÁTICO! 2 - Amplatzer Duct Occluder II (ADO II) ou ADO II AS



3- Amplatzer Piccolo Occluder
para neonatos de baixo peso.
4 - Coils (espirais)
para PCA < 2 mm
Exames de Imagens durante o procedimento: ECO + Fluoroscopia.
Eco transtorácico ou transesofágico (conforme idade/paciente)
Ajuda a dimensionar o canal arterial

Ajuda a mapear o posicionamento de guias, cateteres e oclusor.
Também ajuda a avaliar obstruções vasculares (oclusor obstruindo a aorta e/ou artéria pulmonar).
Arco em C ou Aparelho de hemodinâmica:

A fluroscopia é crucial. Sem as imagens em tempo real, se torna muito difícil realizar o procedimento.
Penso que este procedimento é mais radiológico do que ecocardiográfico (diferentemente do fechamento do FOP/CIA, que é mais ecocardiográfico do que radiológico). De qualquer forma, os dois métodos são fundamentais durante o procedimento.

A projeção de trabalho usualmente é a Oblíqua anterior esquerda/lateral.
Quanto mais próximo do perfil lateral (ângulo de 180 graus), melhor para identificar o canal, porém pior para o ecocardiografista (a maquina fica na sua frente).
Materiais diversos não precisa decorar, mas é importante se certificar que a hemodinâmica tenha)
Contraste iodado não iônico - pode ser feito puro ou com diluido 50% com soro fisiológico (ex: 05 ml de contraste com 05 ml de soro em uma seringa de 10 ml)
Sistema manifold e extensores
Dispositivo de múltiplas vias utilizado no sistema de infusão com o objetivo de aumentar e organizar as linhas de infusão de medicações a partir de um único lúmen.
É dispensável.
Seringas 10 e 20 ml
Solução salina heparinizada
Heparina EV (100-200 UI/kg)
para evitar formação de trombos e coágulos nas guias, introdutores, e especialmente, no sistema venoso e arterial quando iniciar a introdução dos cateteres mais calibrosos.
Antibiótico profilático (segundo protocolo da instituição)
Sistema de monitorização: ECG, oximetria, pressão invasiva (se aplicável)
Material para compressão hemostática (curativos, compressas)
4) DESCRIÇÃO DO PROCEDIMENTO - PASSO A PASSO.
Posicionamento em decúbito dorsal, monitorização, sedação e intubação orotraqueal
Antissepsia e colocação de campos com exposição da região inguinal esquerda e direita;
Punção da artéria femoral esquerda e implante do introdutor 5 fr
Introdução e Navegação de fio-guia hidrofílico junto com cateter pig-tail através do sistema arterial e posicionamento próximo a subclávia esquerda.
Retirada do fio guia hidrofílico (cateter pigtail pronto para uso - conexão no extensor da bomba injetora).
Injeção de contraste/aortografia.
Dimensionamento angiográfico e ecocardiográfico do canal arterial.
Pode ser feito uma injeção de contraste na projeção LATERAL 180 esquerda
Seleção do dispositivo conforme medidas.
Recomenda-se selecionar um dispositivo cuja extremidade menor seja pelo menos 2mm maior que a parte mais estreita do PDA (para o dispositivo Amplatzer Duct Occluder I (ADO I).
Punção da veia femoral direita e implante do introdutor 6 Fr
Introdução e Navegação de fio-guia hidrofílico junto com cateter MP
Posicionamento do cateter MP na artéria pulmonar
Troca da guia Hidrofílica por um guia teflonado ponta reta (pode também ser usada uma guia hidrofílica ponta reta ou a curva).
Cruzamento do canal arterial com a Guia teflonada ponta reta e introdução da Guia até aorta descendente distal próxima a bifurcação das artérias ilíacas, para não ter risco da guia retornar à arteria pulmonar quando realizar troca de guia e cateter.
Introdução do catateter MP através o canal arterial sobre a guia ponta reta (o cateter também fica posicionamento o mais distal possível no sistem arterial.
Troca da guia teflonada ponta reta pela guia Stiff ponta J (guia de suporte).
Retirada do introdutor 6 Fr
Inserção do dilatador dentro da bainha. Avanço da bainha introdutora com o dilatador sobre o fio de troca (guia stiff) através da artéria pulmonar para a aorta e posicionamento da bainha na aorta descendente. Remoção do dilatador.
Passagem do cabo de entrega pelo carregador (loader) e atarraxe o oclusor PDA no sentido horário na ponta do cabo de entrega.
Retirar o ar do dispositivo -Mergulho do dispositivo e o carregador em solução salina e tração do oclusor PDA para dentro do carregador.
Introdução do carregador dentro da bainha de entrega e sem rotação, avanço do dispositivo dentro da aorta descendente.
Implante da saia de retenção e tração firme do sistema contra o orifício do PDA.
Isso pode ser observado sob fluoroscopia, ou pode ser claramente sentido como uma sensação de puxão em sincronia com a pulsação aórtica.
A posição confirmada com angiograma na aorta usando o cateter pigtail e Ecocardiograma.
Retração da bainha de entrega e implante a parte cilíndrica do dispositivo com segurança no canal arterial patente enquanto aplica uma leve tensão.
Verificação se o dispositivo está comprometendo o ramo pulmonar esquerda:
Observações: Remova o dispositivo se mais de 3mm de comprimento se estender para dentro da artéria pulmonar ou se mais da metade do lúmen da artéria pulmonar esquerda estiver obstruída pelo dispositivo.
Em casos duvidosos, realize o ecocardiograma transtorácico antes de liberar o dispositivo com a medida Doppler
O dispositivo deve ser removido se o fluxo da artéria pulmonar esquerda for superior a 3,0 m/s (ou superior a 75% da velocidade do LPA antes do cateterismo cardíaco).
Certificação do Posicionamento satisfatório do dispositivo.
Liberação o dispositivo girando o cabo de fornecimento no sentido anti-horário até que ele se separe do Oclusor e, finalmente,
Remoção o cabo e a bainha do paciente.
Curativo compressivo.
Referências:
1.Yarrabolu and Syamasundar Rao, Pediat Therapeut 2012, S5 DOI: 10.4172/2161-0665.S5-005
2.Sievert H, Qureshi SA, Wilson N, Hijazi ZM, editors. Percutaneous Interventions for Congenital Heart Disease. 1st ed. London: Informa Healthcare; 2007.

3.Philip, Ranjit & Waller, Benjamin & Agrawal, Vijaykumar & Wright, Dena & Arevalo, Alejandro & Zurakowski, David & Sathanandam, Shyam. (2015). Morphologic characterization of the patent ductus arteriosus in the premature infant and the choice of transcatheter occlusion device. Catheterization and Cardiovascular Interventions. 87. 310-317. 10.1002/ccd.26287.









































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