ELETROGRAMA (EGM): 03 CONCEITOS BÁSICOS QUE O DIFERENCIAM DO ELETROCARDIOGRAMA
Atualizado: há 2 dias
O Eletrograma Intracavitário (EGM) é uma ferramenta essencial utilizada em marcapassos e outros dispositivos de estimulação cardíaca para monitorar e analisar a atividade elétrica diretamente do coração.
Para o cirurgião cardiovascular, dominar a interpretação do EGM é fundamental para avaliar o funcionamento de marcapassos, CDIs e ressincronizadores, reconhecer alterações e orientar condutas clínicas.
Nessa postagem iremos falar do básico com o objetivo de desmitificar esse tema, e observar como ele difere do ECG.
1.O que é o EGM e como interpretar?

O eletrograma (EGM) é o registro gráfico da atividade elétrica cardíaca obtido por meio de eletrodos posicionados diretamente no tecido cardíaco ou próximos a ele, permitindo registrar os potenciais elétricos locais.
É diferente do eletrocardiograma tradicional (ECG), pois capta os sinais diretamente do interior do coração, permitindo uma análise complementar da atividade elétrica do coração.
Tenho o hábito de pensar que o EGM seria o ECG de dentro do coração, com duas "derivações (nos casos de marcapasso dupla câmara, claro). Veja o exemplo abaixo.

Os canais atrial e ventricular apresentam ajuste automático de ganho (AutoGain), recurso que adapta a amplificação dos sinais para facilitar sua visualização, sem necessariamente modificar a sensibilidade programada do marcapasso.
A velocidade de varredura (Sweep Speed, indicado na imagem pela seta amarela) é de 25 mm/s, indicando a escala temporal de apresentação do eletrograma - notem que é a mesma utilizada convencionalmente no eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações.
A interpretação do EGM segue uma lógica semelhante à do eletrocardiograma (ECG) convencional:
Identifique os canais: atrial (A), ventricular (V) e de marcadores (Markers).
Reconheça os eventos: AS e VS (eventos detectados); AP e VP (eventos estimulados).
Avalie a frequência e a regularidade: analise os intervalos A–A e V–V, assim como fazemos com os intervalos P–P e R–R no ECG.
Analise a relação atrioventricular: observe a sequência dos eventos atriais e ventriculares, semelhante à relação P–QRS no ECG.
Observe a morfologia dos sinais: identifique potenciais cardíacos verdadeiros, ruídos, miopotenciais e interferências.
Avalie a resposta do dispositivo: verifique se o marcapasso detectou e respondeu adequadamente aos eventos elétricos, incluindo a ativação de algoritmos como o AMS.
Colocarei exemplos adiante de EGM alterados, de maneira que podemos observar o que é o normal
2.Como o EGM Funciona?

Na estimulação cardíaca artificial, os eletrogramas são registrados pelos eletrodos de marcapassos, cardiodesfibriladores implantáveis (CDI) e ressincronizadores, que estão fixados diretamente nos átrio e ventrículos - usa a função de detecção (sense - note na imagem acima um eletrodo cortado transversalmente.
Observe que sua estrutura contém uma "linha de sensibilidade ", capaz de observar a atividade elétrica cardíaca.
3.Qual a importância do EGM?
O EGM é fundamental para capturar não só os sinais elétricos normais do coração (despolarizações atriais e ventriculares), mas também para identificar:
Arritmias,
Leia nossa postagem sobre Mudança Automática de Modo do marcapasso (clique aqui) para entender como o eletrograma pode ajudar a detectar arritmias, como a FA, e acionar algoritmos no dispositivo.
Interferências eletromagnéticas
A interferência eletromagnética ocorre quando sinais provenientes de fontes externas são captados pelos eletrodos ou circuitos do dispositivo e podem ser interpretados incorretamente como atividade elétrica cardíaca.
As principais fontes incluem equipamentos médicos, como eletrocautérios e ressonância magnética; e dispositivos do cotidiano, como celulares, ímãs e sistemas antifurto.
Vale destacar que a maioria dos equipamentos domésticos modernos apresenta baixo risco de interferência quando utilizada adequadamente.
No EGM apresenta um captação de sinais de alta frequência, que pode apresentar um padrão chamado de "colar de pérolas (veja a imagem abaixo).

Ruídos de baixa frequência:
As principais causas são:
Miopotenciais (ou seja, captação da atividade elétrica muscular).
Danos aos condutores dos cabos eletrodos (aqueles que observamos na imagem do tópico 2);
Problemas de conexão no cabeçote do gerador;
Alterações no isolamento dos cabos eletrodos.

Sinais de outras câmaras (far field) - ou seja, o eletrodo atrial detectar o sinal da câmara ventricular e gerar mal funcionamento do aparelho.
Quando esses sinais anormais são detectados e interpretados pelo dispositivo, podem desencadear algoritmos automáticos do marcapasso, como a Mudança Automática de Modo (Automatic Mode Switching – AMS), em resposta às taquiarritmias atriais, ou a Resposta ao Ruído (Noise Reversion), que pode ativar a estimulação assíncrona para evitar a inibição inadequada do marcapasso.
Dessa forma, o EGM permite compreender não apenas a atividade elétrica cardíaca, mas também como o dispositivo reage a ela.
Take-Home Message
Uma diferença fundamental entre o eletrocardiograma (ECG) e o eletrograma intracavitário (EGM) está na forma de aquisição e utilização dos sinais elétricos. Enquanto o ECG registra a atividade elétrica global do coração por meio de eletrodos posicionados na superfície corporal, o EGM registra potenciais elétricos locais captados pelos eletrodos intracardíacos.
O grande diferencial do EGM nos dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis é que esses sinais, além de serem registrados, são processados pelo dispositivo e podem desencadear respostas automáticas por meio de algoritmos específicos.
Assim, enquanto o ECG permite analisar a atividade elétrica cardíaca, o EGM também nos ajuda a compreender como o dispositivo interpreta essa atividade e modifica seu funcionamento em resposta a ela.






































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