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ELETROGRAMA (EGM): 03 CONCEITOS BÁSICOS QUE O DIFERENCIAM DO ELETROCARDIOGRAMA

15 de set. de 2024
4 min de leitura

Atualizado: há 2 dias



  • O Eletrograma Intracavitário (EGM) é uma ferramenta essencial utilizada em marcapassos e outros dispositivos de estimulação cardíaca para monitorar e analisar a atividade elétrica diretamente do coração.


  • Para o cirurgião cardiovascular, dominar a interpretação do EGM é fundamental para avaliar o funcionamento de marcapassos, CDIs e ressincronizadores, reconhecer alterações e orientar condutas clínicas.


  • Nessa postagem iremos falar do básico com o objetivo de desmitificar esse tema, e observar como ele difere do ECG.



1.O que é o EGM e como interpretar?

  • O eletrograma (EGM) é o registro gráfico da atividade elétrica cardíaca obtido por meio de eletrodos posicionados diretamente no tecido cardíaco ou próximos a ele, permitindo registrar os potenciais elétricos locais.


  • É diferente do eletrocardiograma tradicional (ECG), pois capta os sinais diretamente do interior do coração, permitindo uma análise complementar da atividade elétrica do coração.

    • Tenho o hábito de pensar que o EGM seria o ECG de dentro do coração, com duas "derivações (nos casos de marcapasso dupla câmara, claro). Veja o exemplo abaixo.

Eletrograma normal
Eletrograma intracavitário (EGM) de marcapasso bicameral de um paciente do nosso ambulatório. O traçado apresenta três canais: (1) canal atrial (A Sense Amp), que registra a atividade elétrica atrial; (2) canal ventricular (V Sense Amp), que registra a atividade elétrica ventricular; e (3) canal de marcadores (Markers), que identifica os eventos detectados e estimulados pelo dispositivo, como AP (estimulação atrial), AS (sensibilidade atrial), VP (estimulação ventricular) e VS (sensibilidade ventricular).
  • Os canais atrial e ventricular apresentam ajuste automático de ganho (AutoGain), recurso que adapta a amplificação dos sinais para facilitar sua visualização, sem necessariamente modificar a sensibilidade programada do marcapasso.


  • A velocidade de varredura (Sweep Speed, indicado na imagem pela seta amarela) é de 25 mm/s, indicando a escala temporal de apresentação do eletrograma - notem que é a mesma utilizada convencionalmente no eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações.


  • A interpretação do EGM segue uma lógica semelhante à do eletrocardiograma (ECG) convencional:

    1. Identifique os canais: atrial (A), ventricular (V) e de marcadores (Markers).

    2. Reconheça os eventos: AS e VS (eventos detectados); AP e VP (eventos estimulados).

    3. Avalie a frequência e a regularidade: analise os intervalos A–A e V–V, assim como fazemos com os intervalos P–P e R–R no ECG.

    4. Analise a relação atrioventricular: observe a sequência dos eventos atriais e ventriculares, semelhante à relação P–QRS no ECG.

    5. Observe a morfologia dos sinais: identifique potenciais cardíacos verdadeiros, ruídos, miopotenciais e interferências.

    6. Avalie a resposta do dispositivo: verifique se o marcapasso detectou e respondeu adequadamente aos eventos elétricos, incluindo a ativação de algoritmos como o AMS.

      • Colocarei exemplos adiante de EGM alterados, de maneira que podemos observar o que é o normal


2.Como o EGM Funciona?

  • Na estimulação cardíaca artificial, os eletrogramas são registrados pelos eletrodos de marcapassos, cardiodesfibriladores implantáveis (CDI) e ressincronizadores, que estão fixados diretamente nos átrio e ventrículos - usa a função de detecção (sense - note na imagem acima um eletrodo cortado transversalmente.

    • Observe que sua estrutura contém uma "linha de sensibilidade ", capaz de observar a atividade elétrica cardíaca.


3.Qual a importância do EGM?

  • O EGM é fundamental para capturar não só os sinais elétricos normais do coração (despolarizações atriais e ventriculares),  mas também para identificar:

    • Arritmias,

    • Interferências eletromagnéticas

      • A interferência eletromagnética ocorre quando sinais provenientes de fontes externas são captados pelos eletrodos ou circuitos do dispositivo e podem ser interpretados incorretamente como atividade elétrica cardíaca.

      • As principais fontes incluem equipamentos médicos, como eletrocautérios e ressonância magnética; e dispositivos do cotidiano, como celulares, ímãs e sistemas antifurto.

        • Vale destacar que a maioria dos equipamentos domésticos modernos apresenta baixo risco de interferência quando utilizada adequadamente.

      • No EGM apresenta um captação de sinais de alta frequência, que pode apresentar um padrão chamado de "colar de pérolas (veja a imagem abaixo).

    Eletrograma com ruído Padrão colar de pérolas
    • Ruídos de baixa frequência:

      • As principais causas são:

        • Miopotenciais (ou seja, captação da atividade elétrica muscular).

        • Danos aos condutores dos cabos eletrodos (aqueles que observamos na imagem do tópico 2);

        • Problemas de conexão no cabeçote do gerador;

        • Alterações no isolamento dos cabos eletrodos.

    Eletrograma com ruído de baixa frequência


  • Sinais de outras câmaras (far field) - ou seja, o eletrodo atrial detectar o sinal da câmara ventricular e gerar mal funcionamento do aparelho.



  • Quando esses sinais anormais são detectados e interpretados pelo dispositivo, podem desencadear algoritmos automáticos do marcapasso, como a Mudança Automática de Modo (Automatic Mode Switching – AMS), em resposta às taquiarritmias atriais, ou a Resposta ao Ruído (Noise Reversion), que pode ativar a estimulação assíncrona para evitar a inibição inadequada do marcapasso.

    • Dessa forma, o EGM permite compreender não apenas a atividade elétrica cardíaca, mas também como o dispositivo reage a ela.



Take-Home Message

  • Uma diferença fundamental entre o eletrocardiograma (ECG) e o eletrograma intracavitário (EGM) está na forma de aquisição e utilização dos sinais elétricos. Enquanto o ECG registra a atividade elétrica global do coração por meio de eletrodos posicionados na superfície corporal, o EGM registra potenciais elétricos locais captados pelos eletrodos intracardíacos.


  • O grande diferencial do EGM nos dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis é que esses sinais, além de serem registrados, são processados pelo dispositivo e podem desencadear respostas automáticas por meio de algoritmos específicos.


  • Assim, enquanto o ECG permite analisar a atividade elétrica cardíaca, o EGM também nos ajuda a compreender como o dispositivo interpreta essa atividade e modifica seu funcionamento em resposta a ela.



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